Capítulo-1
P.O.V.- Autor
Ela está num avião, sentada na poltrona do lado da janela.
Enquanto olha a paisagem, lágrimas escorrem pelo seu rosto. O voo 747 para
Londres está quase vazio, ela não se importa de verem as lágrimas, só quer
fechar os olhos e abri-los novamente quando pousar.
Naquela manhã,
P.O.V.- Nathalie Simmons.
-Nath.
Eu olho para Jake, ele tem biologia comigo desde que entrei
nesse colégio. Eu não sou de fazer amizades que durem mais do que minha estadia
no colégio, eu me mudo bastante, mas Jake foi tão persistente que acabou se
auto-tornando meu amigo. Complicado né? Eu também sou.
-Fala.
Ele sorri pra mim e mostra a língua.
-Comprou a passagem, chata?
Eu rio baixo para que o professor Fitz não desconfie que
estamos conversando na sua aula.
-Você ainda duvida Collins? Estou me mudando esta noite.
E fecho a cara e guardo meu livro, dois minutos para que o
sinal bata e eu tenha completado o terceiro ano do ensino médio. Ah sim, onde
estão meus modos. Me chamo Nathalie Simmons, Nath pra descomplicar. Tenho 17
anos, meu sonho é cursar fotografia em Londres, sair daqui e finalmente me
mudar pra algum lugar que eu realmente queira. Antes de qualquer coisa, minha
mãe não é de ter relacionamentos muito duradouros, a dona Marie também não
gosta de ser chamada de ex. Então, quando o relacionamento termina, lá vamos
nós arrumar as malas. E ela me arrasta junto, isso tudo começou quando eu tinha
cinco anos. O ano que meu pai nos abandonou, e ano que minha mãe começou a me
tratar como se eu fosse uma lembrança ruim. Eu sou a cara do meu pai, olhos
azuis, cabelos pretos e o sorriso como se fosse cópia. Temos praticamente o
mesmo rosto, a diferença é que eu não sou de abandonar ninguém. Assim que entro
num colégio, explico que não sou muito de ficar. Por isso não sou de fazer
amigos.
-Não acredito que vai deixar a bela Nova Iorque pela chuvosa
Londres.
Eu rio.
-Sempre gostei de Londres, Jake. Nova Iorque foi só uma
linda, populosa, estressada e interessante sala de espera.
Ele sorri.
-Tudo bem Simmons, mas não te quero desaparecida. Caso
contrário pego primeiro voo para Londres
e te arrasto de volta.
-Tudo bem Collins, me acompanha até em casa?
Eu o observo enquanto ele acena com a cabeça e guarda os
livros na mochila. No mesmo instante alguns alunos da outra sala entram com
bexigas na mão.
- O último fim de ano galera!
Eles gritam e jogam as bexigas cm tinta, sou acertada em
cheio na camiseta, me abaixo, mas é tarde demais, estou toda suja. Alguns
minutos depois o professor corre atrás deles. Jake me ajuda a levantar.
-Não vai sentir falta disso, Nath?
-Nem um pouco.
Eu digo enquanto puxo a trança que fiz no cabelo para ver
que está todo sujo de tinta amarela. Jake me deixa na porta de casa com um
aceno de mão e uma promessa de que vai me buscar para me levar no aeroporto. A
porta de casa está destrancada, vai ver dona Marie resolveu sair e esqueceu de
trancar. Me deparo com ela sentada no sofá da sala, tomando uma xícara de café.
-Chegou tarde.
Ela murmura quando me vê parada diante dela.
- Teve trote na escola.
Eu falo e continuo observando-a. Espero ela estar tomando
outro gole de café.
-Mãe...- Eu espero que ela erga os olhos na minha direção-
Já resolveu?
-Resolvi que menina?
Eu suspiro e largo a mala no chão.
-Mãe, preciso do dinheiro para pagar a faculdade.
-Que faculdade?
Ela olha para o vazio, provavelmente estava bêbada quando eu
disse sobre a faculdade de fotografia.
-A faculdade de fotografia em Londres mãe, preciso de três
mil pra poder pagar o segundo ano.
Ela se levanta e me encara.
-Faculdade de fotografia Nathalie?
Ela diz cada palavra pausadamente, com desprezo.
-Eu não vou pagar faculdade de fotografia, você vai ser só
mais uma fotógrafa sem dinheiro e sem carreira. Você é igual á seu pai, não
pensa num futuro, só quer saber do momento, de você!
Ela grita comigo e eu estou farta disso, farta das
comparações que ela faz comigo, farta de ela dizer que não vou ter futuro.
-Eu não sou como ele!
Estou gritando também. Ela aponta o dedo para mim.
-Você só me traz desgosto, porque não faz algo útil, porque
não escolhe alguma coisa que vai te dar futuro?
Ela se aproxima de mim.
-É o que eu quero fazer, você não vai me impedir!
Estamos nesta mesma discussão á semanas, mas desta vez eu
não vou ficar quieta esperando que ela faça um gesto com a mão me mandando para
o quarto.
-Você nunca vai entender não é? Você não é a filha que eu quis ter!
Ela grita comigo e eu grito de volta.
-Ótimo, porque agora você não tem mais filha nenhuma!
Eu pego a mochila e subo a escada batendo os pés e a porta
do meu quarto. Largo a mochila em algum canto, entro no banheiro e tomo um
longo banho. Estou exausta, cansei de discutir com ela, cansei de explicar que
eu quero fazer fotografia. Saio do banheiro e coloco um jeans, meu all-star,
uma camiseta branca e prendi cabelo num coque frouxo. Termino de arrumar a
última mala com uma hora de sobra para o voo. Checo os documentos, a passagem e
dou um suspiro antes de sair do quarto. Tenho um pouco de dificuldade para
descer a mala de rodinhas, mas chego á porta da frente com o celular em mãos.
Mando uma mensagem para Jake.
“Pode me levar antes?
Problemas em casa...”.
Ele responde logo depois.
“Claro! Estou indo
para aí.”
Ele chega dez minutos depois, não pergunta o que houve.
Talvez seja por isso que Jake é meu amigo, talvez, indiretamente, ele saiba que
tenho problemas com a minha mãe, mas não queira comentar. Pegamos um
congestionamento perto do aeroporto, tenho apenas meia hora antes de partir.
-Pra quê tanta mala, Simmons?
Eu dou um tapa em seu ombro.
-Estou me mudando Collins, tudo meu está aí dentro!
Ele sorri.
-Então, se eu sair correndo você desiste de ir?
-Não.
Eu rio.
-Você promete que vai manter contanto, não é?
Eu coloco as duas mãos em seu rosto.
-Ai meu Deus, que amigo carente eu fui arrumar!
Ele sorri, eu beijo sua bochecha.
-Claro que vou, quero ver quem é a menina da vez.
Ele sorri.
-Talvez eu convide Chelsea para passar um fim de semana
comigo.
Eu finjo uma cara de nojo. Chelsea era líder de torcida da
nossa escola, a típica loira oxigenada que atrai atenção de todos os meninos.
-Faça isso e me esqueça como amiga.
Eu fecho a cara, ele passa o braço pelos meus ombros.
-Nunca!
Ficamos rindo e conversando enquanto faço o check-in e espero
o voo. Ele chega antes que eu esteja preparada para dizer adeus.
-É melhor que você não me esqueça Simmons, vou até lá pra te
tirar das mãos de qualquer britânico que game em você.
Eu abraço.
-Pode deixar, eu to indo lá resolver minha vida Collins,
nenhum menino. Eu prometo.
Ele me acompanha até o embarque. Entro no avião com a cabeça
erguida e muitas coisas em mente, a faculdade Hensworth de fotografia,
literatura e artes havia aceitado meu requerimento no mês passado, eu tinha
alugado um apartamento á duas quadras da faculdade. Tinha alguns papéis sobre
empregos de meio período em Londres, não sei porque estava nervosa.
O voo 747 para Londres está quase vazio, eu olho pela
janela, vejo Nova Iorque desaparecer, sinto as lágrimas escorrerem pelo meu
rosto, as palavras da minha mãe ecoam na minha cabeça. “Você não é a filha que
eu quis ter!” Eu fecho os olhos e respiro fundo, quer acordar em Londres, quero
esquecer a vida que tive aqui.
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