P.O.V.- Nathalie Simmons
Era como se um pedaço do meu peito tivesse sido arrancado. Havia aquele apito estranho nos meus ouvidos por causa a explosão. O galpão estava em chamas, fuligem e fumaça me envolviam assim como o detetive. Ele havia se colocado sobre mim para me proteger de quaisquer destroços. Eu me lembro de gritar, de alguém me segurando e de ouvir o delegado tentando me acalmar, mas eu não conseguia. Me lembro de ver vários policiais correndo de um lado para o outro, gritando uns com os outros. Eu senti minha cabeça pesar e deixei que o delegado me levasse até a viatura. Em algum momento durante a viagem de volta, minha mente parou de processar qualquer informação. Quando voltei á mim, estava com um copo de água na mão, na sala do Detetive Blake e olhava fixamente para a mesa á minha frente. Perguntaram-me se eu estava bem. Eu concordei com a cabeça. Perguntaram-me se eu queria ir para casa. Eu concordei com a cabeça. Consegui indicar o número de Jake na lista telefônica do meu celular, antes que eu pudesse ir, o delegado avisou que o corpo de minha mãe seria cremado, se eu preferisse. Eu teria alguns minutos com ela se quisesse. Mas não iria sozinha. Esperei Jake chegar.
-Você está bem?
Jake correu pela porta e me abraçou. Eu ainda não tinha chorado.
-Eles vão cremá-la. Não sobrou nada do corpo mesmo.
-Ah Nathalie! Eu sinto muito!
Ele me abraçou outra vez. Eu me sentia confusa, eram turbilhões de sentimentos e pensamentos na minha cabeça. O delegado nos guiou até a sala onde o corpo estava, eu não sabia o que sentia, não era eu ali. Eu não consegui olhar para ela, eu não sei se queria vê-la no estado em que eu achava que estava, de modo que atravessei a sala e olhei os pertences que foram recuperados. Entre vários objetos parcialmente queimados, achei um objeto circular, coberto por fuligem. Era a aliança da minha mãe, dentro ainda podia se ver a data do casamento gravada em letras de mão. Foi o único pertence que quis levar. Jake passou o braço por meus ombros e manteve seu corpo perto do meu enquanto saíamos da delegacia. As pessoas conversavam á minha volta mas eu estava distraída tentando recuperar o estado original da aliança.
-Nathalie. Olha pra mim.
Jake colocou as duas mãos no meu rosto, forcando-me a olhar para ele.
-Você está bem?
Consegui mexer a cabeça alguns centímetros, afirmando. Ele suspirou.
-Olha, eu sei que é difícil, mas precisamos resolver umas coisas com a papelada da sua mãe. Você vai embora amanha e precisaria de um advogado. Blake conseguiu o número do consultor da sua mãe, o testamento está com ele.
Embora todas aquelas palavras fossem conhecidas, me senti confusa ao ouvi-las juntas. Concordei mais uma vez com a cabeça e segui Jake até seu carro, ele dirigiu devagar, virando-se para mim á cada minuto, perguntando se eu estava bem. Eu não entendia porque ele ficava repetindo a mesma pergunta. Jake estacionou na frente da minha casa e o sol começava a se pôr. Era uma vista bonita. Ele me ajudou á procurar qualquer papel importante na caixa da minha mãe, aproveitamos para ensacar todas as coisas que eu não levaria para Londres. Quando o consultor da minha mãe chegou, passava da uma da manhã.
-Meus pêsames senhorita Simmons, é uma perda horrível.
O consultor veio me cumprimentar, eu não consegui gravar seu nome.
-Olá. Sou Jake Collins, advogado dela.
Jake cumprimentou o consultor e nos sentamos á mesa.
-Esse é o testamento, no último mês sua mãe o atualizou e anexou ao documento, uma carta endereçada á senhorita.
Ele disse empurrando uma pasta na minha direção, eu não conseguiria ler o testamento. Empurrei-o para Jake e tomei o pesado envelope em mãos.
-Quando ela escreveu isso?
Eu perguntei, os olhos colados na caligrafia caprichada da minha mãe.
-Não sei ao certo, Marie não me disse e eu achei educado não perguntar.
Ele cruzou as mãos em cima da mesa. Jake lia o documento com atenção.
-E aí?
Eu perguntei olhando para o meu amigo. Jake suspirou e baixou a folha de papel na mesa.
-Você deveria ler isso, mas não agora.
-Você é a única herdeira dela, de modo que todos os investimentos vão passar para o seu nome.
-Alguma taxa?
-Não, Marie conseguiu deixar a filha como beneficiária imediata. Não vão ter grandes problemas se não a correspondência que terá de ser trocada.
Jake e o consultor pareceram esquecer de mim por alguns momentos. Eu assinei os papéis necessários e apertei a mão do consultor. Jake me abraçou de lado e subiu para pegar as coisas que iríamos doar. Eu sentia minha cabeça pesada, meu corpo inteiro doía. Eu não dormi a noite inteira, não queria abrir o envelope mas a curiosidade crescia cada vez mais de modo que eu fiquei no dilema "abrir-ou-não-abrir" a noite inteira. Jake não pôde me acompanhar até o aeroporto de manhã, nos despedimos com um longo abraço quando terminamos de tomar café. Eu tomei o remédio de June que, combinado com o meu cansaço, me permitiu dormir o vôo inteiro. Eu não me lembro de ter tomado qualquer taxi para ir para casa, mas, de repente, eu estava encarando minha porta. Eu não compreendia porque "apagava" em alguns momentos, podia ser o efeito dos remédios, podia ser qualquer coisa. Eu subi até o meu quarto e desfiz as malas. Eu estava agindo como um robô. Notei o envelope no fundo da mala e ele parecia muito mais pesado do que da primeira vez que eu o segurei. Abri o envelope com cuidado e reconheci a caligrafia cuidadosa da minha mãe, retirei os papéis grampeados de dentro do envelope e li as primeiras linhas.
"Querida Nathalie, eu sei que tem sido difícil. Me perdoe por todas as vezes que eu não consegui olhar nos seus olhos. Você sabia que tem os olhos do seu pai? Eu nunca admiti. Era doloroso demais. Me perdoe por te abandonar quando você mais precisava de mim, foi errado, eu me arrependo..."
Eu respirei fundo e enxuguei as lágrimas com as costas da mão. Eram inúmeras páginas, com a data de quando ela havia escrito. Cartas que ela tem guardado desde que eu tinha cinco anos. Era um pedido de desculpas. E eu não podia dizer á ela que a perdoava. Coloquei um casaco, andei até a banca de jornais mais próxima e fiz algo que não fazia á muito tempo. Comprei um maço de Marlboro Ultralight.
P.O.V.- Annabelle DeLarue
-Harry.
Eu o adverti quando as coisas começaram a esquentar demais. Eu estava na casa dele, começamos a ver qualquer filme que estava passando na televisão e, depois, Harry começou a me beijar.
-Desculpe.
Ele beijou minha bochecha e se sentou adequadamente no sofá. Eu sabia que ele estava desapontado. Eu suspirei.
-Olha, não é como se eu não quisesse- Eu podia sentir minhas bochechas esquentando- Eu só.... Não acho que seja a hora certa.
Harry sorriu para mim.
-Eu sei, não vou forçar a barra. Vai acontecer no seu tempo, certo?
Ele acariciou minha bochecha com o polegar e selou nossos lábios.
-Obrigada, Harry.
Eu me inclinei e o beijei. Embora sentisse com todas as células do meu corpo que o que eu sentia pelo Harry era amor, não sabia se podia dar esse passo na minha vida. Era algo muito grande e eu tinha medo do que esperar. Era estranho. Harry passou um braço pela minha cintura e eu fiquei com a lateral do meu corpo colada com o dele.
-Que filme é esse mesmo?
Harry perguntou, brincando com uma mecha do meu cabelo. Eu olhei para a televisão por um instante.
-Não faço ideia.
Eu comecei a rir, Harry me olhou e fez um barulho de reprovação com a boca.
-Você não pode me distrair desse jeito, senhorita DeLarue.
Eu me senti ofendida.
-Eu estava te distraindo? Você que começou!
Cruzei os braços e fiquei séria. Harry tentou desfazer a minha careta e começou a me fazer cócegas.
-Harry! Para!
Eu gritei e me debati, mas o desgraçado não parou.
-Harry, por favor!
Eu mal tinha fôlego. Ele sorriu e parou, eu bati no ombro dele.
-Eu estou com fome.
Harry disse saindo de cima de mim.
-E eu te odeio.
Resmunguei. Harry se levantou e me encarou.
-Vamos comer alguma coisa?
Meu estômago se revirou, embora fosse por imaginar sendo vista com Harry em público outra vez.
-Porque não pedimos alguma coisa, eu estou cansada e não estou vestida para ir á lugar nenhum.
Eu apontei para o moletom dois números maiores que o meu e os jeans surrados. Harry estendeu a mão para que eu me levantasse.
-Você está linda. Vem, eu estou com uma vontade enorme de comer tacos.
-Não sabia que curtia comida mexicana.
Eu me dei por vencida e levantei, calcei meus tênis e acompanhei Harry para fora do apartamento.
-Comida mexicana é a minha favorita.
Ele sorriu mostrando as covinhas, embora eu quase nunca admitisse, a comida francesa nunca me agradou muito. E olha que eu nasci lá! Mas eu sempre gostei mais de massa e todas as coisas que envolviam a comida italiana.
-Tem um restaurante bem legal, vou te levar lá.
Harry entrelaçou nossas mãos enquanto estávamos no elevador. Eu não estava me sentindo totalmente segura, mas ter Harry do meu lado me transmitia um pouco de confiança. Ele dirigiu até a parte sul da cidade, um pouco menos movimentada onde tudo começava a ter aquela cara de interior.
-Estamos chegando?
Eu perguntei ainda olhando pela janela.
-Quase, eu disse que era um restaurante reservado.
Olhei para o Harry á tempo de ver seu sorriso. Ele continuou dirigindo por mais alguns minutos até estacionar na frente de um restaurante mexicano. Harry se apressou em sair do carro e abrir a porta para mim.
-Não precisa fazer isso.
Eu sorri
-Preciso sim.
Ele piscou e sorriu. Eu não entendi.
-O que quer dizer com isso?
Perguntei enquanto entrávamos no restaurante.
-É muito simples.
Ele disse enquanto sentávamos em uma das mesas.
-Você disse que queria algo mais romântico. Aqui estou eu.
Não pude evitar sorrir. Ele estava fazendo isso por mim.
P.O.V.- Nathalie Simmons
Quando eu voltei para o apartamento, peguei a carta e subi até o telhado. Eu precisava respirar.
"Querida Nathalie, eu sei que tem sido difícil. Me perdoe por todas as vezes que eu não consegui olhar nos seus olhos. Você sabia que tem os olhos do seu pai? Eu nunca admiti. Era doloroso demais. Me perdoe por te abandonar quando você mais precisava de mim, foi errado, eu me arrependo. Você tem cinco anos agora, é nova demais pra entender o que aconteceu. Eu espero poder te mostrar esta carta quando você for um pouco mais velha, espero poder dizer com todas as palavras que, embora eu odeie o seu pai, você não deve odiá-lo. Ele cometeu um erro, talvez o pior erro de sua vida. Mas somos humanos. Cometemos erros.
__ 20 de março 1999
"Você me perguntou porque seu pai não ia voltar para o seu aniversário. Eu tenho notado que você sente a falta dele. Você era tão pequena quando ele foi embora. Talvez seja errado eu te esconder dele. Nathalie, seu pai nos deixou quando você tinha cinco anos porque ele tinha outra família. Foi por isso. É fácil escrever. Mas eu não consigo de dizer isso. Eu nunca contei como a gente se conheceu, pois bem. Minha mãe me mudou de colégio quando eu tinha quinze anos. Era o primeiro dia de aula e estava sendo aterrorizante. Eu era baixinha naquela época e todo mundo gostava de me zoar. No intervalo, alguns garotos vieram implicar comigo e eu bati em todos eles. Seu pai veio me perguntar se eu estava bem e eu acabei batendo nele também. Eu o acompanhei até a enfermaria e fiquei com ele enquanto a enfermeira aplicava gelo no rosto dele. Ficamos conversando o dia inteiro e depois estávamos grudados um no outro. Começamos a namorar pouco tempo depois, a gente brigava o tempo todo. Ninguém nunca acreditava que eu ia casar com aquele idiota, mas assim que eu terminei a faculdade, ele pediu minha mão. Não foi nada romântico, o seu pai tinha um certo problema quando se tratava de seguir planos. Era pra gente fazer um piquenique no parque, mas estava chovendo. Ele tentou cozinhar e quase colocou fogo na casa. Seu pai tinha escrito um discurso lindo ( ou pelo menos, ele me disse que era) já que ao tentar apagar o fogo, acabou molhando o papel. A gente sentou no chão da casa que a gente tinha acabado de comprar, não tínhamos nada além do básico. Ele me olhou e sorriu, tirou a caixinha do bolso e me pediu para casar com ele. Não foi românico, mas me pegou de surpresa. O dia que a gente se casou foi o segundo mais feliz da minha vida, o primeiro foi o dia que você nasceu. Nathalie, eu sou fraca por não ser a mãe que você merece. Me desculpe.
__ 04 de Agosto, 2001"
"Eu não sei onde nos perdemos. Em um momento, eu sabia exatamente quem você era. No outro, eu tenho que te buscar numa delegacia ás três horas da manhã. O que aconteceu Nathalie? Eu nunca parei pra pensar que isso te atingia também. Eu nunca parei pra pensar, que comigo ausente, você não tinha ninguém. Me desculpe por isso. Eu errei, mas peço que não cometa esses erros. Você está entrando num terreno perigoso, me desculpe não estar lá pra te guiar.
__ 13 de março, 2009"
" Você não entende porque eu não quero que vá pra Londres. A faculdade é ótima, eu sei. Você é uma fotógrafa fantástica, eu vi. Me desculpe por dizer aquilo, você nunca vai ser como o seu pai. Você tentou o seu máximo pra continuar perto de mim, a culpa é minha por não estar ali. E mesmo quando Jake veio te buscar hoje á tarde, você não foi como seu pai. Você olhou para trás e eu sabia que queria se despedir de mim antes de ir. Seu pai está em Londres, Nathalie. Ele mora lá com a mulher e a filha. Sim, você tem uma meia irmã. Eu não sei o nome dela, mas eu sei que ela é dois meses mais nova que você. Kyle me traiu. Seu pai me traiu. Ele mora na capital, numa casa elegante num bairro de classe A. É por isso que eu não queria que você se mudasse para lá.
__ 23 de setembro, 2009"
"Eu não tenho te visto. A culpa é minha. Eu deveria ter dito antes, e agora você se foi. Eu nuca tinha percebido a falta que você faz. A casa parece extremamente vazia sem você aqui. Eu sei sobre as coisas que você guardou sob o piso, eu senti falta da foto do meu álbum, você provavelmente não sabia que ás vezes dormia sem guardá-la. Eu me sinto tão arrependida Nathalie, eu deveria ter te contado antes, deveria ter estado lá por você. Se um dia você receber essas cartas, espero que possa entender que eu cometi erros enormes e eu me sinto muito mal, espero que você me perdoe.
Caso eu não entregue essas cartas, você as receberá com meu testamento. Eu deixo todos os meus bens para você. A casa de Oakland passará para o seu nome. Ela é sua. O dinheiro na minha conta será transferido para a sua depois da correção de impostos e..... Todo o dinheiro do banco numa conta da Suíça, é seu. São oito milhões e meio de dólares, seu nome está nos registros e eles saberão o que fazer se você entrar em contato com eles. Se eu morrer, se desfaça de todas as minhas jóias e roupas, faça o que bem entender com eles. Se eu morrer, não precisa ficar em luto. Vou entender se não chorar por mim também. Mas saiba que eu sempre te amei, mesmo não demonstrando.
Espero te ver outra vez, Nathalie.__ 12 outubro, 2012"
Quando eu terminei de ler, não sabia de mais nada. Sabia que havia acabado com um maço inteirinho de cigarros e que chorava. Eu não tinha raiva da minha mãe, entendia um pouco sobre o que ela passou e, de algum modo, eu me sentia bem de novo. Amada, em certos aspectos.
P.O.V.- Autor
Pelas próximas semanas, Nathalie esteve ocupada assinando á papeladas, revendo as fotos da edição de natal da People e realizando o enterro de sua mãe. Carolyn, June e John foram os únicos á irem. Nathalie leu algumas partes da carta de sua mãe e comentou o que sentiu ao ler aquilo. Ela não chorou. Não precisava mais. Havia perdoado a sua mãe e, embora ainda doesse saber que ela nunca mais veria a mãe, tinha um certo conforto em saber o que ela sentia de verdade. Nathalie havia almoçado com Tyler todos os dias da semana e, pouco á pouco, o episódio do Ensino Médio foi ficando irrelevante. Tyler era, querendo ou não, um garoto encantador. Nathalie acordava bem cedo pela manhã, tomava um café enquanto seguia para a People e ficava por lá até a hora do almoço quando tinha uma folga. Voltava uma hora depois e revisava todas as fotos em sua sala, em espaço razoavelmente grande com duas estantes repletas de livros sobre fotografia e as edições da revista, algumas fotos de Nathalie com os amigos e uma grande mesa na frente da janela com o computador, um bloco de notas e alguns papéis que ela tinha que assinar. Nathalie escolheu cada móvel da sala e achava o ambiente todo acolhedor. E tinha que achar, já que passava metade do dia trancafiada na sala, por sua própria escolha, já que era mais fácil de se concentrar, estando sozinha. Na terceira semana, em particular, ela estava terminando a última foto da última página da revista quando seu celular vibrou em cima da mesa.
-Oi.
Ela atendeu sem olhar no visor, só faltava aquela foto e Nathalie iria pra casa.
-Atrapalho alguma coisa?
Tyler riu do outro lado da linha e ela riu também.
-Não, estou quase acabando, e aí?
-Vou sair do treino mais cedo, não quer ir ao centro comigo?
-O que você vai fazer lá?
-Tenho que buscar meu smoking para a premiação, achei que pudéssemos olhar o seu vestido também.
-Tyler.
Ela disse censurando-o. Há algumas semanas, ele havia perguntado se ela já tinha um vestido para ir, assim, ele colocaria a gravata combinando. Nathalie sorriu e disse que não tinha nada descente para vestir em uma premiação. Tyler então, se ofereceu para comprar o vestido dela.
-Você não vai comprar o meu vestido. Eu não vou discutir isso com você.
Tyler bufou.
-Passo aí em dez minutos, você não pode me obrigar á nada.
Ele desligou antes que Nathalie o mandasse para um lugar não muito educado. Em quinze minutos, os dois estavam dentro do Jipe Cherokee preto de Tyler, á caminho do centro. Eles ainda discutiam em algumas coisas, mas sempre acabavam rindo no final.
-Quanto tempo falta para o natal?
Nathalie perguntou, observando alguns lojistas já aprontarem a decoração.
-O mês inteiro, estamos no dia cinco.
-E a premiação é...
-Em dois dias. Eu já te disse.
Nathalie deu uma cotovelada de leve nas costelas de Tyler enquanto caminhavam até a loja.
-Senhor Daniels! Estava esperando o senhor.
Roger Fergutti era o estilista dono da loja, Nathalie vivia se perguntando se aquele italiano estava sempre de bom humor, ou se era só com eles.
-Sua roupa está pronta, Betty trouxe hoje de manhã.
O senhor uniu as mãos e guiou os dois até a sala de provas de roupa. Nathalie esperou pacientemente até que Tyler aparecesse devidamente vestido e maravilhosamente lindo naquele smoking todo preto, com a gravata e o lenço de bolso brancos. Ele estava incrivelmente elegante e Nathalie piscou algumas vezes para poder responder a pergunta que haviam lhe feito.
-O que achou?
Tyler abria os braços para que Nathalie pudesse ver o traje todo.
-Está... Elegante. Bem melhor que o seu moletom.
Nathalie escolheu as palavras com cuidado. Tyler sorriu para ele e voltou a se olhar no espelho. Ele ficava fazendo caretas para Nathalie pelo espelho e a garota estava quase sendo indelicada quando seu celular começou a tocar.
-Alô?
O número desconhecido não dava pistas de quem seria do outro lado da linha.
-Nathalie?
-Sim, quem fala?
-Sou eu. Kyle.
-Ahn, pode falar.
Nathalie havia hesitado, ela tinha perdoado a mãe. Não sabia se deveria fazer o mesmo com o pai.
-Eu queria almoçar com você amanhã. Você não quer vir aqui em casa?
Natalie travou por um momento. Ir na casa de Kyle significa conhecer a família dele. Isso era um passo muito grande para ser dado. Tyler encarou a garota por um minuto, ela segurava o celular próximo á orelha mas estava em completo silêncio. "Quem é?" Ele diz movendo os lábios. "Kyle." Ela move os lábios dela em resposta. Tyler sabia muito pouco sobre Kyle, com mais algum tempo de conversas sme som, Tyler aconselhou Nathalie á ir nesse almoço.
-Nathalie, você está ai?
Kyle perguntou depois de não receber nenhuma resposta por um tempo.
-Estou aqui. Eu vou precisar do endereço, me mande por e-mail. Tenho que ir, nos falamos depois.
Nathalie desligou antes que Kyle respondesse. Tyler pagou pelo smoking e pediu que fosse entregue em sua casa amanhã de manhã. Ele andou com Nathalie pela galeria, eram lojas e mais lojas com roupas caríssimas e marcas famosas. Nathalie passou pela vitrine de Catherine Deane e encarou por um momento, um lindo vestido longo que estava na vitrine.
-Gostou desse?
Tyler perguntou, olhando para onde Nathalie mantinha os olhos fixos.
-É muito caro, a gente acha outra coisa.
Ela disse dando de ombros e voltando a andar, Tyler segurou a menina pelo braço e a arrastou para dentro da loja. Uma mulher veio atendê-los.
-Posso ajudá-los?
Ela perguntou dando um sorriso.
-Tyler eu não...
-Shh.- Ele colocou a mão sobre a boca dela e se virou para a moça- Eu queria aquele vestido branco ali da vitrine. É para ela.
A mulher mediu Nathalie com os olhos e balançou a cabeça uma vez. Uma outra moça veio guiá-los até a sala de provas.
-Tyler!
Nathalie disse soltando o ar quando o garoto removeu a mão, ele sorriu e Nathalie socou seu ombro.
-Eu não acredito que você está fazendo isso.
Nathalie disse num sussurro ao notar que a mulher voltara com o vestido em mãos.
-Eu vou te ajudar, venha cá.
A mulher sorriu para Nathalie e a puxou pela mão para um quartinho atrás de uma porta. Era tudo muito organizado e bonitinho, parecia parte de um quarto de uma princesa.
-Aqui.
Nathalie tirou suas roupas rapidamente e colocou o vestido, estava com vergonha, o vestido era tão lindo! E se ela ficasse com cara de boba? As duas mulheres ajudaram com o zíper e os botões na parte de trás do vestido. Nathalie prendeu o cabelo num coque frouxo e se olhou no espelho á sua frente.
-Coube perfeitamente.
Uma vendedora disse á outra e elas sorriram enquanto olhavam para Nathalie pelo espelho.
-É lindo.
Nathalie sussurrou enquanto sentia o tecido na ponta dos dedos. Ela se sentia como uma princesa.
-Talvez seu namorado também queira dar uma olhada.
Nathalie sentiu as bochechas pegarem fogo.
-Ele não é meu namorado.
-Ah, me desculpe.
Nathalie saiu do provador e subiu num pequeno círculo no centro da sala, as vendedoras ajeitavam o tecido, de modo que ele ficasse certo no corpo de Nathalie.
-O que acha?
Nathalie perguntou olhando para Tyler, ela mal notou o brilho nos olhos dele.
-É perfeito. Vamos levar.
Ele disse para a vendedora e ela concordou com a cabeça. Nathalie tentou protestar, ela não queria que Tyler comprasse um vestido tão caro para ela. Ela não queria que ele comprasse vestido nenhum.
-Se você disser mais alguma coisa, eu vou te amarrar e te jogar no porta-malas.
Tyler encerrou a discussão enquanto passava o cartão na máquininha. O vestido teria os ajustes necessários e seria entregue no apartamento da Nathalie no dia da premiação. Tyler deixou Nathalie em casa, ela agradeceu á ele e o beijou na bochecha antes de sair do carro.
P.O.V.- Nathalie Simmons
Eu acordei cedo na manhã seguinte. Kyle havia me mandado o e-mail com o endereço e eu estava me sentindo muito nervosa. Desci as escadas e liguei a tv quando passei pela sala, ouvi o noticiário sem muito interesse enquanto preparava um chá. Meu telefone tocou e eu achei um tanto estranho, já que a maioria das pessoas que me ligavam, ligavam no meu celular.
-Alô?
-Aí está. Não liga mais para os amigos não? O que houve? Não gosta mais da gente?
Fui bombardeada com perguntas quando atendi o telefone. Harry, Louis e Liam. Claro.
-Garotos!
-Oi!
-Um de cada vez, por favor.
-Porque você não atende nossas ligações?
Louis. Todo sentimental.
-Eu estive ocupada por um tempo, coisas da revista. Você sabe.
-Podemos almoçar juntos hoje? Temos novidades.
Liam, porque tão fofo?
-Eu já tenho um compromisso...
-Por favor, Nathalie. Sentimos sua falta. E, se serve de consolo, Niall não vai. Só quatro de nós com as respectivas namoradas.
-Eu não tenho namorada, idiotas.
Embora eu preferisse não ouvir o nome daquela pessoa, fiquei feliz em saber que Liam estava melhor, mas alguém havia ecoado sua frase.
-Zayn?
Eu disse rindo.
-Por favor Nath! Temos muita coisa pra contar pra você.
-Tudo bem, umas três e meia? Aqui em casa?
-Fechado. Nos vemos depois!
Eles gritaram ao mesmo tempo e desligaram o telefone. Eu balancei a cabeça e fui lavar a louça que havia sujado.
Continuei vendo tv, até me convencer que estava quase na hora de me encontrar com Kyle e a família dele. Tomei um banho e me vesti, eu tinha a impressão de que estava formal demais, mas estava num humor muito bom e ninguém ia mudar isso.
(http://www.polyvore.com/remembering_sunday-nathalie_simmons/set?id=77326961)
Chequei o endereço no Google mais uma vez antes de sair e então, me convenci que tinha de fazer isso. Eu precisava seguir em frente. Demorou pouco mais de meia hora para chegar até o subúrbio, na casa de Kyle. Eu estacionei na frente da residência e me demorei um pouco até sair do carro. Toquei a campainha e uma garota abriu pouco depois. Ela tinha a minha altura e sorriu ao me ver.
-Nathalie!
Ela me puxou para um abraço e eu me senti desconfortável.
-Á propósito, sou Jenna. Sua... Ahn... Meia-irmã.
(http://www.polyvore.com/remembering_sunday_jenna_simmons_porter/set?id=77328992)
Ela abriu um pouco mais a porta para que eu pudesse entrar, a casa era magnífica. Parecia aquelas mansões de filmes. Tudo tão bonito e perfeitamente organizado. Jenna fechou a porta atrás de mim e me olhou por um momento.
-Eles estão na sala, vem comigo.
Ela me conduziu até a sala onde Kyle e uma mulher estavam sentados no sofá. A mulher se levantou e sorriu ao me ver.
-Você deve ser a Nathalie. Meu Deus como está grande! Eu sou Anne, muito prazer.
Ela estendeu a mão e eu apertei. Anne era uma mulher muito elegante, um nó se formou na minha garganta quando eu me lembrei que Kyle havia traído minha mãe com ela.
(http://www.polyvore.com/remembering_sunday_anne_porter/set?id=77329996)
-Me desculpe pela ocasião, eu tinha planejado te conhecer muito antes. Venha, vou servir o almoço. Kyle se levantou e sorriu para mim. Eu não fiz nada além de seguí-lo para a sala de jantar. Jenna saiu da minha vista por um momento, Kyle se sentou na ponta da mesa enquanto Anne colocava as louças na mesa. Quando terminou, Anne se sentou na outra ponta. Me sentei no meio e Jenna sentou de frente para mim. Eu me sentia desconfortável. Anne e Jenna me faziam perguntas ocasionais do tipo, onde você fez faculdade, como fui contratada pela People, se eu me orgulhava do meu trabalho, porque escolhi fotografia, onde havia comprado o vestido que estava usando... Coisas assim. Kyle me observava atentamente e, quando terminou de comer, limpou a garganta e me fez uma pergunta.
-Como vai a sua mãe?
Eu deixei os talheres no prato e o encarei.
-Ela está morta.
Um silêncio desconfortável se fez á mesa. Eu não queria pegar pesado, mas ele merecia.
-Ah, querida. Eu sinto muito.
Anne disse. Eu tirei o guardanapo do colo. Que tipo de gente usa guardanapo de pano em casa?
-Olha, não me levem á mal. A comida estava ótima, eu gostei de conhecer vocês mas... Não me sai da cabeça que meu pai ficou com você enquanto estava casado com a minha mãe. Eu só preciso de um tempo pra digerir tudo isso. Obrigada pelo almoço, estava maravilhoso.
Eu me levantei e caminhei até a porta, antes que pudesse sair, ouvi alguém gritando, pedindo para esperar.
-Espera, por favor, não vai embora ainda!
Uma garotinha desceu as escadas correndo. Ela abraçou minha cintura.
-Você não pode ir sem isso, por favor.
Ela me entregou uma carta.
-Chloé, qu'est-ce que tu fais?
Jenna apareceu na porta que dava para a sala, ela cruzou os braços e tirou a criança da minha cintura.
-Désolé, Jenna.
Porque diabos elas estão falando francês?
-Desculpe por isso, Chloe é directioner. Peça desculpas, Chloe.
-Desculpe, Nathalie.
-Não tem problema, eu acho.
-Jenna, eu só ia entregar a carta á ela.
-Você sabe que não deve.
-Nathalie, será que você pode entregar essa carta para os meninos? Por favor!
Ela juntou as mãos e fez um biquinho.
-Claro! Quem é seu favorito?
-Boo-Bear.
Ela disse baixinho e me abraçou.
-Obrigada Nathalie!
-Agora volte á estudar, mamãe não vai ficar nada feliz se saber que você anda matando as aulas.
Chloe subiu correndo outra vez. Eu sorri.
-Eu te acompanho até o carro.
-Quem era aquela?
Eu pergunto enquanto andamos até meu carro.
-Minha irmã, ela tem onze. Desculpe-me pela cena, Chloe não parou de falar sobre você e as fotos do álbum da banda. Ela é meio maluquinha.
-Desculpe pela cena na mesa. Eu não tinha a intenção.
-Ah, tudo bem. Eu acharia estranho se não o fizesse.
Eu sorri.
-O que era aquele lance do francês com a Chloe?
-Ela anda matando as aulas, fizemos um voto de silêncio contanto que ela continuasse estudando.
-Interessante.
Havíamos chegado ao carro.
-Olha, eu sinto muito por toda essa situação. Minha mãe ficou realmente magoada quando soube de toda a verdade. Eu peço desculpas por eles.
-Não precisa, eu tenho intenções de perdoar meu pai algum dia, eu só preciso me acostumar com essa situação.
-Eu gostei de você. Achei que ia te odiar sabe, com o lance dos nossos pais... Mas não. Você é bem legal.
Ela disse depois que eu falei, nós duas rimos.
-Eu também gostei de você, se quer saber.
-Devíamos sair algum dia.
-Claro.
Trocamos o número de celular e eu voltei para casa, eram quase três horas. Eu subi até o apartamento e quase morri do coração ao ver June, Zayn, Harry, Annie, Louis, Els e Liam na minha sala.
-O que diabos vocês fazem aqui?
-Queríamos ter certeza que você não estava mentindo pra gente.
Louis deu de ombros.
-Eu não acredito que pensam isso de mim.
Eu deixei as chaves em cima da mesa e tirei o salto.
-Onde foi, toda arrumada assim?
June perguntou me abraçando.
-Almoçar com Kyle e a família dele.
Todos eles me encararam.
-E como foi?
-Quase normal, eles ficaram assustados comigo. Eu acho.
-Claro, do jeito que você é, qualquer um fica assustado.
-Muito obrigada, Styles.
Annie bateu nele por mim.
-Ah, Louis, tenho uma coisa pra você.
Eu peguei a carta que Chloe me entregou e entreguei á ele.
-Quem é Chloe?
Ele perguntou abrindo o envelope.
-Minha meia-irmã.
Eles se amontoaram para ler a carta, eu fui arrumar a bagunça que eles tinham feito.
-Cara, sua irmã é muito fofa!
Harry disse enquanto ia lendo.
-Meia-irmã.
Eu disse enquanto guardava os pacotes de comida que eles tinham aberto.
-Olha só isso! " Eu não sei se um dia vocês chegarão a ler isso, mas eu gostaria que soubessem que eu me orgulho muito de ser fã de vocês. Vocês me ensinaram a sonhar, obrigada." Eu acho que ela deve ser a irmã mais meiga do mundo! Posso apertar?
Louis disse ao terminar de ler a carta, acompanhado de um coro de "Anw!"
-Meia-irmã. E acho que pode, você é o favorito dela.
Eu me sentei na poltrona e os encarei.
-E aí, que notícias maravilhosas vocês vieram me trazer?
-Vamos numa premiação amanhã, conseguimos um lugar pra você na nossa mesa.
-Isso é muito gentil da parte de vocês.
-E você pode ir no tapete vermelho com a gente. Annie disse que não vai, é muita pressão.
Ela encolheu os ombros quando Harry disse isso.
-Muito obrigada garotos, mas eu já recebi um convite para o tapete vermelho.
Liam e Zayn ergueram as sobrancelhas.
-Você está vendo isso Harold? Ela está trocando a gente.
Louis. Sempre dramático.
-Quem te chamou?
June perguntou, calando Louis.
-Tyler Daniels.
Annie e June ficaram boquiabertas.
-Espera aí, Tyler Daniels? Do Arsenal?
-Ele mesmo.
-Desde quando você o conhece?
Annie perguntou.
-Estudamos juntos. Ele me convidou tem uma semana.
-Eu não acredito nisso.
-É verdade!
-Tá. Troque a boyband pelo jogador famoso. Nós não ligamos.
Liam cruzou os braços, eu fui abraçá-lo.
-Eu ainda posso sentar com vocês. Vocês sabem.
-Eu deveria ficar bravo, mas não estou.
Liam me abraçou de volta. Eu sorri.
-Tá, qual o plano para hoje?
-Pizza na minha casa? A gente pode alugar uns filmes.
Harry propôs. Eles já haviam concordado antes que eu pudesse me opor.
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