-P.O.V.- June Stevens
-Isso está errado, eles já deviam estar aqui.
Eu andava de um lado para o outro da sala. Havíamos voltado depois de achar a cachoeira e não encontrar Niall e Nathalie. Com a chuva, nem reparamos se o carro deles estava lá ou não.
-Você está me deixando nervosa.
Annie passou a mão no rosto, passava das quatro da manhã.
-Alguém já tentou ligar no celular deles?
Eleanor perguntou.
-Já. O celular do Niall está aqui em casa e o da Nathalie está sem serviço.
Liam disse sentando-se ao lado da namorada.
-Vocês estão fazendo tempestade em copo d'água. Eles podem ter ido á um motel, sei lá.
Zayn disse saindo da cozinha, eu ri de um modo sarcástico.
-Você viu como eles estão brigando ultimamente? Ir á um motel seria a última coisa que esses dois fariam.
-A briga pode ser fachada, você sabe.
Harry defendeu Zayn.
-Vocês dois te problemas. Nathalie e Niall nunca vão ficar juntos.
Eu revirei os olhos e me sentei ao lado de Annie. Ficamos um minuto em silêncio, tentando entender onde aqueles dois tinham se enfiado, ouvimos uma gritaria do lado de fora.
-É claro que a culpa é toda sua. Você não faz nada direito!
Era, definitivamente, a voz de Nathalie. Corremos para fora.
-Você fala como se fosse inocente, se você não fosse orgulhosa, eu não teria que ficar pedindo desculpas!
-A gente se perdeu por sua culpa, e você estava dirigindo o carro!
Eles atravessavam o portão, Nathalie estava encharcada assim como Niall.
-Não teríamos nos perdido, se você não ficasse se agarrando com o Liam.
Ele gritou para ela. Nathalie parou e se virou devagar, acho que Danielle teria um ataque.
-Se você não fosse idiota o bastante para me chamar logo pra sair, não ficaria com ciúmes porque eu abracei meu amigo.
-A gente vai ficar aqui assistindo eles se matarem?
Eu perguntei para o pequeno grupo de pessoas que assistiam á cena.
-Shh, a melhor parte vem agora. Eu acho que ele vai falar que gosta dela.
Zayn fez um gesto com a mão e continuou assistindo aquilo como se fosse uma novela. Já que ninguém ia fazer alguma coisa, eu ia.
-Eu já teria te chamado pra sair, se você não tivesse sumido em Nova Iorque.
-Eu eu não teria sumido se você tivesse...
-Ei!
Eu corri até eles e gritei para que eles parassem.
-Dá pro casal ter essa D.R. depois? Vocês precisam entrar, comer, e me explicar direitinho onde estavam.
Entramos na casa, Eu, Nathalie, Annie e Eleanor ficamos na sala. Danielle estava brigando com Liam em algum lugar da casa e os garotos estavam com Niall.
-O que aconteceu?
Perguntamos no quarto de Nathalie, depois que ela saiu do banho. Ela continuava tremendo e os lábios ainda estavam arroxeados de frio.
-O idiota do irlandês fez a gente se perder na floresta, depois que conseguimos sair, ele dirigiu que nem um louco e acabou fazendo o carro rodar, ficou discutindo comigo dizendo que a culpa era minha, mas a culpa é dele! Totalmente dele!
Ela se deitou na cama e jogou a cabeça para trás, frustrada.
-Nathalie...
-E o pior disso, é que ele é ridículo! Fica falando o tempo todo sobre minha foto com o Liam, mas ele não percebe que eu também fico com raiva, quando ele ficava engolindo a namorada ridícula dele.
Eu olhei para Annie, provavelmente ela também pensava que os dois eram um casal e tanto.
-Certo, entendemos que você está com raiva, e você tem que entender que todo mundo ficou preocupado. Até o Ed.
Dito isso Annie deu um sorrisinho.
-Mas agora, você precisa descansar, sabe o que vai acontecer se ficar muito estressada.
-Eu não posso ficar perto dele, meu nível de stress vai lá pra cima.
Ela colocou a mão o mais alto que conseguiu.
-Eu acho que podemos trocar de quarto, sei lá, acabei de ver a Danielle indo embora.
-Embora? Pra onde ela foi?
-Pelo que eu pude escutar do barraco, ela foi pra um hotel. Deixou bem claro que não queria nunca mais ver o Liam.
Eleanor disse com um semblante triste. Poxa, eles estavam juntos á tanto tempo.
-Ótimo, culpa daquele irlandês, acabei com o relacionamento do Liam.
-Não foi culpa de ninguém, cá entre nós, a Danielle é chata pra caralho.
Annie bufou.
-Eles eram tão fofos juntos. Mas eu entendo, a Dani tendia a ser teimosa e mimada ás vezes.
Eleanor lamentou.
-Tá. Eu vou ver quem troca de quarto contigo, enquanto isso, vai descansar.
Eu disse tirando todo mundo do quarto, deixando Nathalie sozinha.
-Eu vejo se o Liam pode dormir com o Niall, acho que a Nathalie não se importaria em dividir o quarto com o Ed.
Eleanor disse, tive que beliscar Annie antes que ela dissesse alguma besteira.
-Ai! Porque ela pode ter o One Direction e o Ed Sheeran?
-Ela não tem ninguém, cala a boca.
-Eu poderia dividir o quarto com ele.
Ela resmungou, eu comecei a rir.
-Annie, você está dividindo o quarto com Harry Styles. Fica quieta.
-É. Bem lembrado.
P.O.V.- Nathalie Simmons
Eu estava tão nervosa, tão cansada e com tanto frio, que tudo o que fiz foi me enrolar nas cobertas e tratar de cair no sono. Acontece, que quando eu quero dormir, eu não consigo. O que serve pra me deixar com mais raiva. Devo ter dormido uma meia hora, o sol estava bem fraco pela fresta da janela e alguém dormia num colchão de ar ao lado da cama. Eu levantei devagar, aproveitei que havia dormido de moletom para calçar meu par de tênis e sair um pouco. Corri no calçadão da praia até meu estômago começar a falar comigo. Era hora de voltar pra casa e comer alguma coisa. Corri de volta até em casa e fui direto comer alguma coisa, estava na segunda tigela de cereal quando Liam apareceu.
-Bom dia!
Eu acenei para ele, estava com a boca cheia de comida. Liam esperou eu terminar de comer para falar.
-Tá afim de me fazer um mega favor?
Eu deixei minha louça suja na pia.
-O que você quer?
Ele sorriu pra mim.
-Pega pra mim um bloquinho de parafina que tá lá no porão?
-Pra quê você quer isso?
-Só vai lá e pega.
Liam começou a me empurrar pelo corredor.
-Tá! Eu pego. Onde que tá?
Eu disse e soltando dele.
-Na prateleira, vai rapidinho.
-Porque você mesmo não pega?
-Vai logo Nathalie.
Eu abri a porta e desci a escada.
-Onde que está?
-Na primeira prateleira, aí em baixo.
Ele respondeu. Eu verifiquei a prateleira mas não tinha nada de parafina.
-Não tá aqui Liam- Eu me virei á tempo de ver a porta fechando- Liam?
Subi as escadas correndo.
-Liam!
Ouvi as risadas do outro lado da porta.
-Liam, abre essa porta!
Eu bati a mão várias vezes, era inútil, mas e daí?
-Eles não vão abrir.
Niall surgiu do nada me dando um susto.
-O que você está fazendo aqui em baixo?
-O mesmo que você.
Eu revirei os olhos e continuei batendo na porta.
-Eu não vou abrir até vocês dois se entenderem.
Liam disse, ouvi a chave sendo tirada da maçaneta.
-Caralho Liam, abre essa porta!
-Não.
Ele disse rindo.
-Não até vocês dois se acertarem.
P.O.V.- Niall Horan.
Eu, oficialmente, odeio meus amigos. Harry me acordou, não sei que horas da manhã, dizendo que precisava de alguma coisa que estava no porão. Eu, como um bom amigo, fui até lá em baixo procurar a tal coisa e não achei nada. Harry, Louis e Zayn trancaram a porta do porão enquanto eu ainda estava lá em baixo, disseram que eu só ia sair quando eu e Nathalie estivéssemos bem. Eu até entendia o lado deles... Mas não precisa me trancar no porão, caralho! Também trancaram a Nathalie, como o combinado entre eles, o problema é que ela não entendia que ficar batendo na porta e gritando, não ia ajudar em nada. Eu resolvi ignorar e fiquei mexendo nas tralhas que estavam no porão do Harry. Tinha tanta tralha aqui que não me surpreendo em saber que Harry quase nunca desce até o porão. Eu estava distraído olhando as coisas quando notei que Nathalie havia parado de bater na porta, ela deve ter murmurado alguma coisa e então, eu ouvi um barulho muito grande. Corri até a escada e encontrei Nathalie desacordada no chão, ela havia caído da escada. O remédio. Pensei imediatamente, voltamos tarde e estávamos cansados, duvido que Nathalie tenha tomado o remédio.
-Liam!
Eu gritei enquanto verificava o pulso de Nathalie. Eu estava desesperado. Onde estava June? Onde estava todo mundo?
-O que aconteceu eu ouvi um barulho eu... Ai meu Deus!
-Onde a June está?
-Ela saiu com as garotas, elas foram comprar alguma coisa para comer.
-Eu tenho que levá-la para o hospital.
Com cuidado, peguei Nathalie no colo.
-Eu vou contigo.
-Você dirige.
Eu disse subindo as escadas, Liam avisou aos garotos que iríamos ao hospital, o carro de Harry estava estacionado perto da porta. Por sorte, estava destrancado. Coloquei Nathalie deitada no banco de trás e Liam chegou rapidamente, fui no banco do carona enquanto ele dirigia com pressa até o hospital local.
-Precisamos de um médico.
Eu carregava Nathalie e falei alto para que alguém viesse logo. Atendendo ao meu pedido, dois enfermeiros vieram com uma maca. Eu os acompanhei.
-Liam, cuida da papelada.
Gritei por cima do ombro enquanto acompanhava os dois enfermeiros.
-Desculpe, mas você não pode entrar.
Lilian, de acordo com o crachá, meu barrou com o braço quando levaram Nathalie para a emergência.
-Eu preciso ir com ela...
-Sinto muito, eles vão fazer alguns exames, essa área é restrita.
Ela me lançou um olhar de advertimento e entrou na ala de emergência.
-E aí?
Liam me perguntou aflito quando voltei para a recepção.
-Vão fazer alguns exames, não me deixaram entrar.
Ficamos em silêncio analisando a situação, o celular de Liam começou a tocar.
-É a June.
Ele murmurou e se afastou alguns metros para escapar do barulho. Ficou afastado por um tempo e voltou respirando fundo.
-Ela está uma fera, disse pra gente não colocar ela em situações estressantes. Mas já está vindo pra cá.
Nos sentamos na sala de espera, eu estava pra lá de preocupado. A garota já me odiava, isso não ia me ajudar muito.
P.O.V.- Nathalie Simmons.
Minha cabeça latejava e eu podia escutar alguém cantarolar baixinho uma melodia triste. Eu estava dopada demais pra abrir os olhos, cansada demais pra querer fazer isso. Tomei consciência de novo quando alguém conversava baixinho.
-O efeito do remédio vai passar logo.
-Ela não vai ficar brava quando souber?
-Acho que não. Eles já estavam brigados mesmo.
Souber do quê? O que tá rolando? Alguém suspirou.
-Esses dois são tão complicados. Ontem mesmo percebemos que ela o ama.
-É! Ele também, estava estampado na cara dele.
Ficaram em silêncio por um tempo.
-Ela vai ficar bem... Certo?
-Claro que vai, isso é só uma fase ruim.
-Eu ouvi sobre o pai dela. É realmente muito complicado.
-E tem todo esse drama dos dois.
-Com licença.
Uma outra voz pediu, eles murmuraram alguma coisa e eu senti uma picada no braço esquerdo. Abri os olhos imediatamente.
-Boa noite!
June me deu um sorriso, uma enfermeira mantinha uma seringa no meu braço e Ed estava sentado na poltrona ao lado da maca onde eu estava deitada.
-O que aconteceu?
Eu perguntei, minha cabeça doía um pouco.
-Você não tomou o remédio.
-E se colocou numa situação estressante.
June e Ed completaram a frase. Foi estranho.
- Cadê todo mundo?
Eu perguntei, lembrando-me da última vez que acordei no hospital e o quarto era pequeno demais pra todo mundo. June e Ed se entreolharam.
-Liam mandou todo mundo pra casa, não iam ajudar em nada lotando a sala de espera.
- Annie e Eleanor insistiram em ficar e estão comendo agora.
Certo. Eles estão me escondendo alguma coisa.
-A boa notícia é que você pode ir pra casa daqui á meia hora.
June contornou o assunto e sorriu. Ficamos conversando por um tempo, eu descobri que o nome do meio do Ed é Christopher. Nada muito revelador, a gente não tinha mesmo o que conversar.
-Certo, senhorita Simmons, está liberada.
A mesma enfermeira que me enfiou uma agulha veio até o quarto com uma prancheta.
-Vou me dar licença pra você se trocar.
Ed sorriu e saiu do quarto. Eu sorri para ele e esperei para que a porta estivesse fechada, aí encarei June.
-O que vocês estão me escondendo?
Eu perguntei olhando-a nos olhos. June suspirou.
-Certo, nada passa por você, não é mesmo?
Ela riu fraco e respirou fundo.
-Niall foi embora.
E, num passe de mágica, todo o ar havia sumido dos meus pulmões. Embora? Pra onde? Porque? Não é porque estávamos brigados, certo? Mas porque ele iria embora?
-P-porque?
Não pude evitar gaguejar, minha voz saiu num sussurro.
-Ele disse alguma coisa sem sentido. Disse que estava cansado dessa viagem e- Ela hesitou antes de continuar, eu concordei com a cabeça, incentivando-a a falar- Ele disse que precisava resolver umas coisas com a Holly.
Ela disse a última frase com os olhos fechados.
-Ah. Legal.
Foi tudo o que eu consegui dizer. Sério, se ele queria ir pra casa com a namorada dele, ele ia. Sem dar satisfação, ou sei lá, dizer coisas sem sentido. June abriu um olho de cada vez, provavelmente surpresa por eu não ter dito nada demais. Na verdade, eu estava cansada desse joguinho. Eu não queria mais brigar, ele podia fazer o que bem entendesse. Nunca fomos um casal. E do jeito que as coisas estão indo, nunca seremos. Ela esperou que eu estivesse vestida para abrir a porta para mim, June e Ed conversaram animadamente sobre música e assuntos aleatórios enquanto eu contemplava as marcas de agulhas no meu braço.
-Chegamos.
June anunciou, era tarde, pelo que eu podia concluir. As luzes estavam apagadas e havia apenas a iluminação do jardim acesa. Antes de dormir, June se certificou de que eu havia tomado o remédio antes de me deixar descansar. Ed estava no colchão de ar ao lado da cama, eu não tinha certeza se ele ainda estava acordado.
-Você tem problemas para dormir, não é?
Ele perguntou depois de um tempo.
-É, não costuma ser tão frequente assim.
-Você quer... hum... Conversar?
-Pode ser.
Eu respondi, não sabia ao certo, sobre o que conversar.
-Eu vou entrar em turnê com a Taylor Swift.
Eu me inclinei na cama para observá-lo.
-O lance que o Harry teve com ela, foi de verdade?
Ele sorriu.
-Eles ficaram algumas vezes. Ela é meio...
-Maluca.
Eu terminei a frase por ele. Nós dois rimos.
-Também, mas ela é possessiva demais, fez Niall e Harry brigarem.
Ele fez uma careta.
-Eu vi o Grammy. Infantil demais.
Ele concordou com a cabeça.
-Você se importa se eu fizer uma pergunta pessoal?
-Posso fazer uma também?
Rebati.
-Claro.
-Então manda.
-Qual o teu lance com o loirinho?
Tá, as pessoas sabem mesmo como me pegar de surpresa.
-Eu... hã.... Faz muito tempo...
Ele riu.
-Relaxa, é só uma pergunta.
Eu suspirei.
-Eu dormi com ele, antes do X-factor, antes da banda, antes de tudo. Uns dois anos depois, me chamaram pra fotografar a banda, eu nem me lembrava do garoto, não via muita semelhança em Niall e no cara de dois anos atrás. Eles disseram que gostaram das minhas fotos e me chamaram pra ser a fotógrafa deles durante a turnê, e eu acabei dormindo com ele de novo. Só que dessa vez, eu trabalhava pra eles. Era errado em muitos sentidos. Niall me contou que nos conhecemos antes e eu meio que fiquei assustada com tudo aquilo. Me afastei por um mês em outro trabalho,e eu acabei criando algum sentimento por ele, mas quando eu voltei, Niall estava com a Holly.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
-Complicado. Mas você quer saber um segredo?
-Qual?
-Ele ama você. Ama de verdade. Ontem a gente estava conversando sobre o que tinha acontecido com vocês, dava pra perceber, sei lá, pelo jeito que ele falava seu nome, como se estivesse negando pra si mesmo que gostava de você.
-Eu não acho que seja isso.
Murmurei.
-Qual é? Tá dizendo isso por causa da Holly? Você já conheceu a garota? Ela é totalmente maluca.
-E irritante.
-E ela terminou com Niall pouco antes de ele entrar no programa, disse que não ia aguentar a distância. Quando a banda começou a fazer sucesso, ela xingou o Niall no twitter e tudo.
-Porque?
-As fãs. Elas ficaram indignadas por ela ter terminado com ele por um motivo desses.
-E mesmo assim, ele voltou com ela?
Ed soltou o ar pesadamente.
-Na minha opinião, ele está tentando fazer ciúmes em você.
-O que?
Ed colocou as duas mãos na cabeça, foi engraçado.
-Vocês dois não percebem! Está tão na cara!
-O que está na cara?
-Já percebeu o modo que você hesita antes de falar o nome dele? Como se quisesse falar outra coisa, mas aí, você o chama pelo nome. E quando ele fala de você, ele desvia o olhar. Eu juro por Deus que ele não olha pra gente quando fala seu nome. Vocês dois foram feitos pra ficarem juntos.
Eu hesito antes de falar o nome dele? Não. De jeito nenhum. Ed Sheeran é maluco. Ele bocejou.
-Só vocês dois não veem.
Ele não disse mais nada. Estava dormindo em alguns minutos.
-Nath?
Alguém cutucou meu ombro. Eu resmunguei.
-A gente quer ir mais cedo, suas coisas estão arrumadas?
Annie estava com a mochila nos ombros.
-Hum? Só um minuto.
Eu me levantei da cama.
-Vocês querem voltar hoje?
-É. O pessoal deu uma desanimada porque o loirinho se mandou.
-Eu só vou tomar um banho.
Annie concordou com a cabeça. Tranquei a porta do banheiro e me enfiei embaixo do chuveiro. Era pra ser uma viagem divertida. Annie jogava alguma coisa no celular quando eu saí do banheiro. Coloquei uma roupa e arrumei a cama antes de sair do quarto. Comi uma maçã antes de sair e estávamos de volta na estrada á caminho de Londres. No caminho de volta, todo mundo estava muito quieto. Louis dirigia, Eleanor ia no banco do carona, Annie e Harry atrás deles, Zayn e June conversavam logo atrás. Ed e eu ocupávamos bancos separados e Liam dirigia sozinho o carro do Harry. Eu tentei ir com ele, mas disseram que ele preferia ficar sozinho.
-Nath, você é a primeira.
Louis me olhou pelo retrovisor, eu sorri para ele.
-Eu ligo pro Niall abrir a porta.
Ouvi Harry dizer, eles trocaram poucas palavras e, em alguns minutos, eu estava me despedindo dos garotos e entrando no apartamento. A porta estava destrancada e Niall assistia á alguma coisa na televisão.
-Está tudo bem?
Ele perguntou enquanto eu fechava a porta.
-Minha cabeça ainda está doendo um pouco, nada demais.
-Ah.
Eu o encarei. "Ah" era tudo o que ele tinha pra falar comigo?
-O que foi?
Ele perguntou bufando em seguida.
-É tudo o que você tem pra me dizer? Eu estava na merda de um hospital quando me falaram que você tinha dado o fora.
Sua expressão facial mudou imediatamente, como se alguém tivesse contado algum segredo.
-O.. O que eles falaram?
Ele se levantou e me encarou. Eu dei um riso sarcástico.
-Qual é, resolver as coisas com a sua namorada é tão ruim assim, que eles tem que esconder de mim?
Eu resolvi ignorar o pequeno sorriso que ele deu, quando sua expressão se suavizou.
-Eu só queria voltar antes.
Ele deu de ombros e caminhou de volta para o sofá.
-Minha companhia é tão ruim assim? Porque eu também não gosto de ficar muito tempo perto de você.
Niall se virou para me encarar.
-Deu pra perceber.
Ele disse entredentes e continuou me olhando.
-O que quis dizer com isso, Horan?
Ele respirou fundo e me olhou nos olhos. Ele estava frustrado, dava pra ver.
-Quis dizer que você sempre foge. Você é covarde.
Dei um passo á frente. Ele seria um garoto morto em alguns segundos.
-Você que saiu correndo de Brighton. Eu não fiz nada!
Ele riu, mas não estava achando graça em nada daquilo.
-Em compensação, você fugiu em Nova Iorque. Fugiu da sua mãe, de mim e está fugindo do seu pai. Vocês dois são realmente parentes. Ele conseguiu escapar de você e da sua mãe e você está fazendo o mesmo caminho.
Minha boca estava aberta, como se eu quisesse dizer algo mas nada saía. Niall ainda respirava fundo, conforme ele se acalmava, dava pra ver seu olhar da culpa.
-Você não... Não devia ter dito isso.
Eu ajeitei a mochila no ombro e passei por ele, entrei no quarto e o tranquei. Por mais que tivesse doído, Niall havia falado a verdade. Eu estava sendo igual ao meu pai, estava fugindo dele. Respirei fundo e olhei para cima, controlando as lágrimas que começavam a se formar.
P.O.V.- Niall Horan
-Você não... Não devia ter dito isso.
Ela disse, a voz estava abafada e eu percebi no mesmo segundo, que não deveria ter falado aquilo.
-Nathalie...
Eu a chamei mas ela trancou a porta do quarto. Sentei no sofá e apoiei a cabeça nas mãos. Caralho, porque eu sempre tinha que fazer merda? Eu não tinha voltado de Brighton para falar com a Holly, numa hora dessas ela deve estar dando para alguém na Irlanda. Eu voltei porque sabia que Nathalie não ia querer me ver quando acordasse e , pelo visto, eu estava errado. Fui até o meu próprio quarto e fechei a porta com força. Eu nunca conseguiria contornar essa situação. Nathalie era orgulhosa, não me perdoaria tão cedo. Fiquei pensando nisso e devo ter caído no sono. Acordei com o toque do meu celular.
-Alô?
-Cadê a Nathalie?
-Carloyn?
-É. Sou eu. Cadê a Nathalie?
-Eu não sei, já tentou ligar pra ela?
Óbvio que eu estava sendo sarcástico. Passei a mão no rosto para espantar o sono.
-Claro que já tentei! O celular dela está desligado. Eu fiquei sabendo o que rolou em Brighton, mas não consigo falar com ela.
-Eu vou passar o telefone pra ela. Um minuto.
-Tá.
Andei até o quarto de hóspedes e bati na porta, como ninguém respondeu eu resolvi entrar. As luzes estavam apagadas e a janela fechada. Ela não estava aqui.
-Niall?
Ouvi Carolyn me chamar, mas eu ainda fitava a cama vazia. Só fui responder quando Carolyn me chamou pela terceira vez.
-Ela não está aqui.
-Credo menino, achei que tinha morrido... O que você disse?
-Ela não está aqui.
-E onde ela está?
-Eu não sei!
-Tem alguma ideia de onde ela pode ter ido?
-Eu não faço ideia Carolyn. Me avisa se descobrir.
-Eu vou tentar achá-la. Te aviso.
Eu desliguei o telefone e pensei em mandar uma mensagem para Liam, mas ele tinha problemas maiores para cuidar.
P.O.V.- Autor.
Nathalie havia sim, desligado o celular, ignorado a melhor amiga e ido para casa. Para a sua casa. Por sorte, Kyle havia entendido o recado. Doía saber que sua filha o estava tratando daquela maneira, mas ele merecia.
14 anos atrás.
Aquela manhã tinha tudo para ser normal para a família Simmons. Marie e Kyle saíram juntos para deixar Nathalie na escolinha, e depois seguiram para o seu trabalho. Kyle Johan Simmons era um investidor de sucesso, tinha uma sala com uma vista ótima no centro. Tinha uma vida perfeita. Um telefonema pôs tudo a perder.
-Kyle?
O homem conhecia aquela voz de longe, esperava nunca mais ouvi-la.
-Eu disse para não me ligar no escritório, Anne.
Ele suspirou, a garota do outro lado da linha era Anne Porter, uma secretária de dezenove anos. Kyle a conheceu em uma viagem de negócios, havia brigado com Marie aquela noite e exagerou na dose de uísque. Acordou ao lado da menina, os dois sabiam que era um grande erro e prometeram guardar segredo. Acontece que a garota tinha engravidado. E sua esposa também esperava um filho seu. Kyle prometera enviar dinheiro, uma pequena pensão, contanto que Anne nunca mais aparecesse. Eles mantinham contato por e-mail, Anne enviava fotos de Jenna á cada mês. A garota foi registrada em cartório com o sobrenome de Kyle. Jenna Simmons Porter era apenas alguns meses mais nova que Nathalie. Kyle mantera segredo por cinco anos, mas toda essa situação era exaustiva. Ver sua filha crescer, ver suas filhas crescerem. Uma tão perto e tão parecida com ele e outra tão longe. Era dolorido. Um erro com que Kyle tinha que conviver. Mas Anne resolveu fazer essa ligação.
-Eu não aguento mais Kyle. Não posso criar a Jenna sozinha. Ela precisa de um pai.
-Anne eu...
-Ela precisa do pai dela! Kyle, você tem que dar um jeito nessa situação.
-O que você quer que eu faça?
-Eu quero que você venha morar comigo. Você disse que estava tudo resolvido com a sua mulher, certo?
Kyle colocou a mão na testa. Pensou em dizer para a garota que não estava mais casado, assim ela não teria como fazer chantagem.
-Eu não vou criar a Jenna sozinha. Você tem uma semana.
Ele suspirou. Sabia muito bem do que Anne era capaz, Marie podia descobrir. Ele teria que enfrentar um longo processo onde não sobrariam nem as roupas do corpo. Conhecia muito bem o poder de persuasão da sua mulher. Ele não tinha escolha. Demorou cinco dias para pensar em alguma desculpa plausível. Marie nunca acreditaria. Ele não havia ido trabalhar, o escritório já havia o transferido para Londres, onde Anne estava criando Jenna. Kyle passou o dia inteiro com a filha no colo e, perto das cinco da tarde, começou a arrumar suas malas. Nathalie era esperta, era pequena mas odiava quando o pai ia viajar. Parecia que ele demorava demais pra voltar e, quando ela estava quase acreditando que ele nunca mais voltaria, ela o via atravessando a porta de entrada. Mas algo no olhar de seu pai fazia com que ela tivesse uma sensação estranha. Algo estava errado.
-Nathalie, querida, estou em casa!
Marie grita pela casa enquanto deixa as chaves em cima da mesa da cozinha, a filha de cinco anos Nathalie deveria estar estudando, mas ficou em casa hoje. Marie procura pela filha no quintal e em seu quarto, mas ela não está. Ela abre a porta da suíte onde dorme com o marido e o encontra de malas feitas, pronto para ir embora, se não fosse por uma menina de cabelos negros e olhos azuis grudada em sua perna.
-O... O que está acontecendo Kyle?
-Estou tentando ir embora.
-É alguma viagem?
Marie não aceitaria ser deixada para trás com uma filha pequena para cuidar.
-Não Marie. Estou indo, pra sempre.
Ela o observa enquanto ele pega a filha no colo.
-Não papai! Não vá, eu prometo que vou dormir na hora que me colocarem na cama. Eu prometo que me comporto papai, não vá!
Kyle teve que engolir a vontade de abraçar a filha e desistir dessa ideia maluca.
-Como pôde Kyle? Vai deixar sua família assim?
Ele se solta da filha e passa por Marie.
-Família, Marie? Isso deixou de ser uma família há muito tempo, ou você acha que com o seu trabalho até tarde e eu preso no escritório até a noite, Nathalie numa escola particular e todos fingindo estar felizes com a situação é uma família?
Havia treinado isso todos os dias no espelho, mas era diferente. Nada no mundo havia o preparado para o olhar de descrença que Marie lançou á ele. Ela estava magoada e ele sabia disso. Nathalie não parava de chorar, Kyle acreditava que, de algum modo, ela sabia que ele estava indo pra sempre. Antes que desistisse de tudo, tomou um táxi até o aeroporto e viajou até Londres. Pelos próximos anos, enfrentou o divórcio com Marie. Eles se reuniam por vídeo-conferências nos tribunais, Marie não viajaria até Londres e Kyle não voltaria para a América. Marie ganhou a causa, Kyle pagaria uma pensão de vinte mil dólares por ano até Nathalie completar dezoito anos. Se a garota estivesse fazendo faculdade, ele pagaria até ela completar vinte e um. Marie nunca contou á filha que recebia esse dinheiro de seu ex-marido. Para ela, Kyle era apenas uma assinatura num cheque.
( Coloquem pra tocar- http://www.youtube.com/watch?v=d8i_RIkljYc)
Para Nathalie, não ter o pai presente era muito pior do que qualquer coisa no mundo. Naquele primeiro dia de primavera há alguns anos atrás, ela não só havia perdido o pai, como a mãe também. Pelos primeiros meses, Nathalie sentava todas as noites na frente da porta e esperava o pai voltar. Marie tinha que colocar a filha na cama porque ela dormia agarrada ao cobertor no chão da sala. Nathalie parou de fazer isso quando fez seis anos. Ela compreendeu que seu pai nunca voltaria. Como sua mãe não falava mais do que o necessário com ela, Nathalie achava que era sua culpa. Ela não obedecia. Ela não dormia no horário certo. Não acordava no horário certo. Não comia couve de bruxelas. Não tomava leite de manhã. Ela se culpava.
O dia dos pais era o mais difícil de passar.
-O que vai dar pro seu pai Nathalie?
-Eu não...
-Cala a boca Lily! Nathalie não tem pai.
As garotas a olhavam com pena. Nathalie odiava quando elas faziam isso. Odiava que sentissem pena dela. Na adolescência, poderiam facilmente dizer que Nathalie tinha algum distúrbio. A garota era calada demais, quase não tinha amigos e estava metida em todos os tipos de confusão. Mal sabiam eles que ela só fazia isso pra se prevenir de se machucar e para chamar a atenção da mãe. Odiava despedidas então não se relacionava o bastante para fazer elas acontecerem. Dos cigarros até a bebida, das brigas até as drogas. Tudo isso era um modo de fazer a mãe ter alguma reação sobre ela. Mas toda vez que a mãe ficava ciente do que estava acontecendo, olhava para Nathalie com desgosto e mandava a garota até seu quarto.
Ela não era suficiente. Não era o bastante. Nada do que ela fazia era o bastante. Los Angeles fez um mal danado para Nathalie. Ela andava com as pessoas erradas que faziam coisas ilícitas. Ecstasy e cigarros. Para ela, o entorpecente não causou tanto efeito quanto os cigarros. Experimentou uma vez, ficou chapada, foi divertido, acabou. Mas o cigarro foi diferente, ela sentia algo quando fumava. E foi a primeira vez que conseguiu arrancar algo além de olhares de desaprovação de sua mãe. Ela parou com isso assim que conseguiu um pouco de atenção. Foi difícil, havia se tornada um vício como mascar chicletes, era tão fácil quanto respirar. Mas ela tinha consciência de que aquilo matava e então, resolveu parar.
Ela já era grande o suficiente para entender que Marie recebia uma certa carta todo mês. Ela a guardava numa caixa que ficava no fundo do armário. Curiosa com isso, aproveitou que a mãe estava até mais tarde no escritório e chamou Jake para olhar a tal caixa. Folheou, pela primeira vez, o álbum de casamento dos seus pais. Deixou alguma lágrimas rolarem quando viu as fotos dos dois cortando o bolo de casamento, eles fizeram aquela coisa de dar um pedaço na boca do outro, Marie tinha lambuzado o rosto inteiro do marido. Foi quando Nathalie percebeu que queria fazer fotografia. O modo como o fotógrafo captou o momento, o modo como eles estavam rindo na foto e como tudo parecia bonito e brilhante. Ela queria fazer isso. Queria tirar fotos assim. Arrancou a foto do álbum e guardou na sua própria caixa de fotografias. Quando ouvia sua mãe escutando os discos antigos, pegava a foto e segurava forte. Ela também sentia a dor de sua mãe, também sentia sua própria dor. Segurar a foto no peito, quase dava aquela sensação de que seu pai só estava viajando, que ele voltaria, a abraçaria forte e beijaria sua mãe com a mesma paixão que ela vira nas fotos do álbum.
Kyle, por sua vez, pensava em Nathalie quase todos os dias. Era quase impossível que sua filha fosse tão parecida fisicamente com ele. Kyle nunca viu como Nathalie estava, não sabia quando tinha dado o primeiro beijo, se tinha sido rainha do baile, se já tinha ido á um jogo dos Red Socks, se gostava de rock, de pop... Queria saber quem foi o primeiro namorado e se tinha viajado pra algum lugar que realmente gostasse. Irônico é o fato de que ele sabia todas essas respostas quando se tratava de Jenna. Ela não tinha culpa. Nenhuma das mulheres de sua vida tinha culpa. Apenas ele. E isso doía demais porque ele sempre gostou de Marie. Desde o colégio, desde que a viu pela primeira vez nos corredores da escola. A garota pequena e briguenta que, aos olhos, era frágil e delicada. O dia mais feliz da sua vida foi quando se casou. Ele estava feliz porque ela também estava, os dois estavam felizes porque estavam juntos. Quando se casou com Anna, ele não sentia a mesma coisa. Mal sorria para as fotos quando, em seu primeiro casamento, sorria quando encontrava o olhar de sua mulher. Kyle era casado e tinha duas filhas nesse casamento. Jenna e Chloe. Chloe nasceu bem depois, Jenna tinha quatorze ou quinze anos. Era a primeira vez que ele se sentia realmente feliz desde que se casou com Anna. Era triste, mas Kyle só estava lidando com o que ele mesmo provocou. Porque nada disso teria acontecido se ele não tivesse bebido aquele dia no hotel. Se ele não fosse orgulhoso e dono da razão e tivesse ligado para Marie, pedindo desculpas. Ela diria que ele era um idiota e o perdoaria porque, afinal, ela amava aquele idiota. Kyle acompanhou de perto o crescimento de suas filhas e parou de pensar em sua antiga família, pouco á pouco, ele não tinha que ir tomar um ar quando ouvia o nome Nathalie.
A situação se complicou de verdade quando ele viu sua filha na televisão. Era algum programa de fofoca que Jenna gostava de assistir, Chloe estava vendo com a irmã porque falava sobre a banda que ela gostava.
"Nathalie Simmons é um nome muito falado ultimamente na mídia. A fofa é a fotógrafa da banda One Direction e, aparentemente, alguma coisa á mais de Niall Horan. Os dois pombinhos foram flagrados numa boate, olha como são fofos juntos! Nathalie desmentiu a história num programa americano, mas ninguém ficou muito contente com um "somos apenas amigos" o que será que ela anda escondendo?"
Kyle quase derrubou a xícara de café que segurava quando ouviu seu sobrenome na tv. Pediu licença para as meninas e se sentou no meio do sofá, bem de frente para a tv. Pausou o programa com o controle remoto e analisou a foto que estava na tela por um instante. Aqueles, sem dúvida, eram seu olhos. Semicerrados e com as mesmas dobrinhas que apareciam quando ele ria. O cabelo dela estava comprido e ondulado, ela sorria e segurava o pulso de um garoto com as duas mãos.
-Pai?
Jenna perguntou colocando a mão na frente do seu rosto.
-Ah, me desculpe crianças. Eu preciso sair por um minuto, digam á sua mãe que eu volto para o jantar.
Jenna olhou para a irmã mais nova que a encarava com uma cara de quem não estava entendendo nada. Ela mesma não entendera o que acabara de acontecer. Sabia que o pai era um tanto quando estranho e, quando sua mãe estava grávida de Chloe, revelou á filha mais velha a verdade sobre seu nascimento. Jenna teve um daqueles estalos que acontecem quando você finalmente entende algo. Nathalie Simmons era a sua meia irmã. Filha de seu pai em outro casamento, alguns meses mais velha do que ela própria. Como não havia percebido antes? A garota é quase a cópia feminina de seu pai enquanto ela é uma mistura da mãe com a avó. Além disso, elas tinham o mesmo sobrenome. Jenna deixou a irmã mais nova vendo tv e se pôs a fazer uma pesquisa sobre Nathalie Simmons. Digitou algumas palavras chaves no google mas os resultados eram absurdos. Apenas com o nome, sabia que a garota trabalhava para a People UK, era amiga do One Direction e tinha um rolo com Niall Horan. Pensou um pouco e se lembrou de algo relacionado á seu pai e alguma cidadezinha na Califórnia. Jenna passou o resto da tarde, verificando registros escolares que continham alguma "Nathalie".
Kyle pegou o carro e dirigiu até a sede da revista People UK, havia visto algo sobre fotos que Nathalie havia tirado para a revista. Fotógrafa. Kyle não acreditava que sua filha era fotógrafa. Enquanto dirigia, ele ligou para o advogado e perguntou se tinha algum modo de ele entrar em contato com John Castle, que era o redator-chefe da People UK. Uma conversa rápida no telefone e ele estava subindo até a sala do redator da revista.
-Senhor Simmons eu estou.... Surpreso com a sua visita.
John o recebeu com um firme aperto de mão. Nathalie nunca havia mencionado sobre sua família.
-Eu vou ser direto. Preciso de um grande favor.
-Dependendo do favor, estou disposto á ajudá-lo.
-Preciso entrar em contato com a minha filha.
-Senhor, eu não sei como poderia ajudá-lo.
-Você não tem o endereço dela? Telefone? Alguma coisa?
-Não podemos fornecer esse tipo de material. Me desculpe.
Kyle se sentiu desolado. Estava tão perto e ao mesmo tempo tão longe de sua filha.
-Eu...Entendo.
-Há algo a mais em que eu possa ajudá-lo?
-Não. Obrigado... Por sua atenção, senhor Castle.
-Não há de quê.
Castle achou que aquela era a visita mais peculiar que já havia lhe ocorrido. Toda a história fez mais sentido quando Nathalie contou sua vida para ele. O pai havia ido embora deixando ela e a mãe sozinhas, entendeu como a garota se sentiu renegada por ambos os pais. Ela se sentia sozinha e John a entendia completamente. Se sentiu sozinho, renegado e abandonado quando, numa madrugada, recebeu um telefonema que o informava que sua mulher e sua filha morreram num acidente de carro. As duas havia ido até Oxford comprar alguma coisa que não disseram. Ele desconfiava ser seu presente de Natal. Por meses se culpou daquilo. Porque não tinha ido com elas? Porque diabos queria um livro que só estava á venda na biblioteca da faculdade? Porque não tinha sido ele no lugar das duas pessoas mais importantes da sua vida?
Nunca havia sentido uma empatia tão grande e olha que sentia que Nathalie era uma garota especial. Naquele dia na exposição, muitos alunos estavam com os pais, melhores amigos e namorados. A garota que tirou quinze fotos incríveis estava com uma senhora de idade e três amigos. Descobriu pela professora que nenhum deles era parente de Nathalie. Ela era diferente. John soube disso no momento em que a viu.
Era engraçado como todas essas vidas estavam entrelaçadas.
P.O.V.- Nathalie Simmons- Atualmente
Eu estava decidida a mudar. Niall era um idiota, mas era um idiota com razão. Eu era covarde. Estava sempre fugindo de qualquer coisa muito grande pra eu suportar. Dirigi até em casa e dei sorte em não encontrar qualquer sinal que indicava que meu pai estivesse ali. Ele não estava. Tirei a tarde para colocar a roupa suja na lavanderia, desarrumar a mala e me sentir em casa outra vez. Só fui ligar o celular quando era fim de tarde. Haviam trocentas ligações do número da Carolyn, do Niall e de alguns membros da banda.
"Eu estou bem. Não morri. Relaxa, estou em casa. Não avise ninguém, preciso de um tempo"
Enviei para Carolyn e meu celular vibrou com a resposta.
"Se você queria me matar do coração, conseguiu. Por onde você andou? Tava todo mundo preocupado."
"Eu preciso de um tempo pra pensar nas coisas, eu estou bem só preciso pensar."
"Poderia pensar com o celular ligado? Obrigada."
"Está ligado. Me desculpe, vou dar uma volta agora"
"Até mais. Vou te ligar mais tarde. É melhor você atender."
Parei de responder as mensagens, tomei um banho e me vesti. Eu precisava sair. Precisava beber, comer alguma coisa, fazer alguma coisa.
(http://www.polyvore.com/remembering_sunday_nathalie_simmons/set?id=73760094)
Eu estava quase entrando no carro quando meu celular tocou.
-Carolyn, eu disse que ia sair. Não precisa me ligar de vinte em vinte minutos.
Eu equilibrei o celular entre a orelha e o ombro enquanto procurava as chaves. Alguém riu do outro lado da linha.
-Eu não sou a Carolyn, mas pra onde vai?
-Oi Tyler! Me desculpe, eu achei que fosse a minha amiga.
Destravei o alarme.
-Tudo bem. Tá indo pra onde?
-Não sei direito, quer me indicar algum lugar?
-Bem... Eu ia te chamar pra uma festa de um amigo meu, quer vir?
-Claro, só me diz quem é o amigo e o endereço, assim eu não fico perdida.
-Tá anotando?
Ele perguntou depois de rir.
-Tô. Pode falar.
-É uma casa verde, número 61. A rua 15 no centro.
-Ah, estou aqui do lado. Dois quarteirões. Chego aí rapidinho.
-Estou te esperando.
Eu desliguei o celular. Eu não precisava do carro pra ir até a rua quinze, dois blocos depois da minha casa. Ativei o alarme do carro e resolvi ir andando. Sair com Tyler não era a melhor opção no momento, mas era uma opção. O clima estava congelante em Londres, me apertei dentro da jaqueta e caminhei um pouco mais rápido. Em poucos minutos, estava na frente da casa onde acontecia a festa do tal amigo de Tyler. Aliás, ele me esperava do lado de fora, sorriu quando me viu.
-Achei que ia vir de táxi.
-Eu estou há dois blocos daqui, não precisa de tudo isso.
Eu sorri para ele. A casa, não era muito grande, e não estava muito lotada. A festa fazia mais o tipo "reuniãozinha social" A música estava alta, mas não estava ensurdecedora. Algumas pessoas conversavam entretidas na sala e outras bebiam num bar no cantinho.
-Quem é o dono da festa?
Perguntei á Tyler. Ele rolou os olhos pela sala e apontou para um garoto que conversava e bebia com outros dois meninos. Eu analisei o pessoal na casa, reconheci poucos rostos e fiquei embaraçada por estar ali. Era uma festa com os jogadores do Arsenal.
-Tyler! Você me trouxe pra uma festa reservada!
Eu me virei para ele e disse baixinho. Ele riu.
-Nem é tão reservada assim, todos eles trouxeram amigos.
-Mas eu não conheço ninguém aqui!
-Não seja por isso- Tyler pegou minha mão e foi me apresentando para as pessoas que estavam ali, no geral, elas eram simpáticas e faziam algumas piadinhas para Tyler. Piadinhas do tipo "Nossa Tyler, não sabia que você tinha namorada." Eu sorria e dizia educadamente, que não era namorada da Tyler. " Nesse caso, meu nome é Adrews, muito prazer." Ele beijou minha mão de um modo galante e eu sorria em resposta.
-Pronto. Agora você conhece todo mundo.
-Tyler, você é maluco.
-Deixa de ser chata, é uma festa! O que você quer beber?
Ele perguntou quando nos apoiamos no balcão do bar.
-Eu não sei- fiz um biquinho- O que você sugere?
-Tequila Sunrise?
Ele deu um sorriso torto.
-Talvez mais tarde, vamos começar com algo novo. O que acha?
-Tenho a sugestão perfeita.
Ele disse sorrindo e pediu alguma coisa para o bar-man, que colocou, logo depois, duas bebidas á nossa frente.
-O que são?
-Apple Manhattan. Pra lembrar de casa.
Ele sorriu e ergueu a taça com o líquido ocre e uma fatia de maça como decoração. Eu o imitei e brindamos. Era forte. Bastante forte. Tinha o gosto, acima de tudo, de maçã. Perguntei o que tinha ali dentro, Tyler me disse que era um licor de maça, vodca e a maçã. Durante um tempo, ele escolhia bebidas aleatórias que tomávamos em silêncio. Aquilo não estava muito animado, mas era o melhor a fazer numa noite de domingo.
-Ah! Eu ia te fazer um convite.
Tyler disse deixando o copo na bancada e se virando para mim.
-Convite?
Eu disse ainda analisando o conteúdo do meu copo, era vermelho e brilhava um pouquinho.
-Vai ter um grande evento daqui á algumas semanas, quer vir comigo?
-Que evento?
Eu deixei o copo na bancada.
-Uma premiação, algo assim.
-Tá me convidando pra ir no tapete vermelho? Com duas semanas de antecedência?
Ele deu um sorriso torto.
-Eu sei como você é ocupada. Vem comigo?
Eu franzi os lábios.
-Tyler... Eu não tenho como ser sua acompanhante.
-Porque não?
Ele parecia desapontado.
-É um evento grande, de gente famosa, eu não tenho roupa, não sou famosa...
-Vai ficar arranjando motivos pra não ir comigo?
Ele me interrompeu. Eu suspirei.
-Não estou arranjando motivos.
-Sabe que eu posso dar um jeito em tudo, certo?
Eu sorri.
-Certo. Eu te acompanho. Mas não quer dizer que estamos juntos.
Eu estendi a mão para ele.
-Fechado.
Ele apertou minha mão e selamos um acordo com um brinde.
P.O.V.- June Stevens
-Onde vai ficar, June?
Louis perguntou assim que deixou Annie na casa dela. Eu abri a boca para responder mas Zayn me cutucou de leve. Ele sorriu.
-Ahn... Não sei, acho que deixei o carregador do celular no carro do Zayn antes da viagem.
Eu disse qualquer coisa, não pareceu convincente e todo mundo reparou.
-Vou deixar você na casa do Zayn então.
Louis me olhou pelo retrovisor, me lançou um sorriso malicioso.
-Você podia ter inventado alguma coisa melhor.
Zayn sussurrou e eu bati em seu ombro.
-Se continuar, vai passar a noite sozinho.
Eu cruzei os braços e olhei para frente. Zayn levou minha brincadeira á sério, ele me abraçou de lado e apoiou a cabeça no meu ombro.
-Eu estava brincando.
Ele disse fazendo um biquinho.
-Eu sei.
Sorri para ele e voltei á prestar atenção no caminho. Louis estacionou na frente do prédio do Zayn e fez aquele sinal de " Estou de olho em você" quando eu saí do carro.
-Só pra deixar bem claro que a gente não está num relacionamento.
Eu ajeitei a mochila nos ombros. Zayn passou o braço pela minha cintura e sorriu.
-Eu sei.
Ficamos esperando o elevador e Zayn aproveitou para me puxar um pouco mais perto e selar nossos lábios, ele apertou minha cintura e eu senti um arrepio na espinha, quando o clima começou a esquentar, alguém fez um barulho com a garganta, eu me afastei imediatamente, com as bochechas em chamas. Uma senhora de idade nos olhava com uma sobrancelha levantada enquanto segurava a porta do elevador para nós. Eu estava tão envergonhada! Zayn agradeceu á senhora que fez questão de ficar entre eu e ele até chegar em seu andar. Ela olhava para Zayn e negava com a cabeça. Ele sorria e olhava para mim, e conseguia me deixar mais ruborizada ainda. Quando as portas se fecharam no andar da senhora, eu e Zayn caímos na risada.
-Ela provavelmente vai achar que eu estou te seduzindo pra te levar pro meu apartamento?
-E não é?
Eu sorri para ele.
-Eu acho que é o contrario. Você que está me seduzindo.
Ele sorriu de volta e eu ri.
-Ah sim, eu fico sussurrando sacanagem no seu ouvido.
Tentei fazer a minha melhor careta sexy, mas percebi que estava sendo ridícula e comecei a rir.
-Á toda hora, não é mesmo?
Zayn piscou para mim e eu ainda ria enquanto ele abria a porta.
-Quer praticar toda a sacanagem que anda sussurrando para mim, senhorita Stevens?
Zayn disse com uma voz extremamente sedutora, mas eu apenas dei tapinhas em seu ombro.
-Não tão cedo, Malik. Não tão cedo.
Eu passei por ele e larguei a mala na sala pouco antes de me jogar no sofá.
-O que quer fazer então?
Ele perguntou, tirando o casaco e sentando do meu lado.
-Filmes de terror e pipoca?
Eu perguntei encolhendo os ombros e sorrindo.
-Podemos dividir a coberta?
Ele perguntou me imitando.
-Você não desiste não é?
Eu perguntei quando ele se levantou.
-Eu faço a pipoca.
Eu disse me levantando também.
-Eu pego o cobertor.
Ele sorriu e andou até o andar de cima. Eu deixei a pipoca no micro-ondas e fui procurar o filme para assistirmos, por sorte, Zayn tinha aquele pacote de televisão que permite que você alugue filmes. Passei por alguns filmes muito velhos até encontrar um que era, relativamente bom. "O mistério das duas irmãs" não era bem um terror, propriamente dito, estava mais pra mistério. Mas eu confesso que a cena da cozinha ainda me faz pular, não importa quantas vezes eu assista. Deixei o filme selecionado e fui buscar a pipoca na cozinha, quando eu voltei, Zayn me esperava enrolado no cobertor.
-O mistério das duas irmãs? Não é meio.... Velho?
Ele perguntou, pegando um pouco de pipoca do pote.
-Eu acho legal, você já viu?
-Não inteiro.
-Então fica quietinho e assiste.
Eu disse apagando as luzes e me cobrindo com Zayn.
Era a cena da cozinha, a personagem principal estava recolhendo o lixo quando a latinha rolou para debaixo do fogão. Eu me encolhi prevendo o que ia acontecer. Ela se abaixou para pegar a latinha e uma mão tentou alcançá-la. Zayn riu quando eu pulei no sofá, eu ia mandá-lo calar a boca, mas a televisão desligou sozinha.
-Acho que a luz acabou.
Zayn murmurou com o braço em meus ombros. É. Estávamos abraçadinhos vendo um filme. Não. Não estamos namorando.
-Eu vou buscar velas.
-Vai lá.
Eu disse puxando o cobertor para mim, Zayn se levantou do sofá e eu não enxergava um palmo na frente do nariz. Fiquei encarando o escuro e constatei que Zayn estava demorando demais para buscar as velas.
-Esse filho da mãe está tentando me assustar.
Eu suspirei e fui atrás daquele idiota.
-Zayn?
Chamei por ele enquanto tateava meu caminho no escuro. Ele não respondeu. Quando eu esbarrei no terceiro móvel da sala, cansei daquela brincadeira e liguei a lanterna do meu celular. Zayn não estava na sala e nem na cozinha.
-Se você está achando que vai me assustar, está muito enganado senhor Malik.
Eu disse para mim mesma enquanto tentava chegar na escada. Senti as mãos de Zayn sobre meus olhos.
-Você trapaceou.
Ele sussurrou no meu ouvido, ma fazendo ficar arrepiada. Maldito.
-Não sabia que estávamos jogando.
Eu resolvi entrar no seu joguinho.
-Ah sim, estamos jogando.
Ele retirou as mãos dos meu olhos. Eu me virei para ele.
-E como jogamos isso?
Ele riu.
-Primeiro, apagamos essa luz.
Ele desceu as mãos, tocando minha pele com a ponta dos dedos, tirando meu celular da minha mão. Eu sorri.
-O que fazemos depois.
-Ah, você vai gostar dessa parte.
Zayn me puxou pela cintura, eu fiquei na ponta dos pés e o puxei mais perto pela nuca. Quando nossos lábios se encontraram, arranhei de leve sua nuca. Se ele podia me deixar arrepiada, eu também podia. Ele respirou fundo quando eu o deixei arrepiado, ele me levantou e eu entrelacei minhas pernas em sua cintura. Mesmo no escuro, Zayn achou o caminho para um dos quartos e, quando dei por mim, estávamos na cama.
P.O.V.- Nathalie Simmons
Eu e Tyler estávamos conversando com alguns de seus colegas do time, estávamos bebendo alguma coisa que um amigo dele tinha sugerido, quando as luzes se apagaram. Ouvi lamentações vindas de todo o cômodo e sorri, era meio cômico a luz acabar durante uma festa. Não me pergunte porquê, mas, no momento seguinte, busquei a mão de Tyler com a minha e o beijei. Eu acho que já tinha bebido demais e, mesmo assim, senti as bochechas esquentarem, mesmo no escuro. Algumas pessoas ligaram as lanternas dos celulares até o pessoal aparecer com lanternas, pelo visto, a festa acabava aqui.
-Você...hum... Quer uma carona pra casa?
Tyler perguntou.
-Tyler, você bebeu o mesmo que eu e, se eu não estou apta para dirigir, imagine você!
Ele sorriu.
-Eu não vou dirigir, bobinha, vamos dividir um táxi.
-Nesse caso, eu aceito.
Eu me levantei e me despedi dos amigos de Tyler, que fizeram a gentileza de nos chamar um táxi.
-O que foi aquilo... Lá dentro?
Tyler me perguntou quando ficamos á sós.
-Foi um beijo ué.
Eu respondi dando de ombros.
-Significou alguma coisa?
Ele perguntou apreensivo.
-Tyler, foi só um beijo. Não significou nada. Relaxa!
Eu tive que rir para quebrar o clima. Tyler se despediu de mim e eu paguei minha parte do táxi que dividimos. Peguei o elevador e entrei rapidamente em casa, eu estava cansada. Tomei um banho, escovei os dentes e fui dormir.
Acordei com meu celular tocando em algum lugar do quarto. Minha cabeça doía e eu realmente não queria acordar, mas, constatando no relógio que eu tinha ao lado da cama, era quase a hora do almoço.
-Alô?
Eu disse ainda sonolenta, tinha pego o celular da bolsa e deitado de novo na cama.
-Nathalie? Você está em casa?
-Oi Jake. Estou sim. Como está indo Nova Iorque?
Eu bocejei.
-Liga a televisão na CNN. Agora!
Ele berrou no telefone e minha cabeça latejou. Se Jake havia me ligado na hora do almoço lá de Nova Iorque, era coisa urgente.
-Já ligou?
Ele perguntou enquanto eu decia as escadas.
-Calma, tô chegando na sala.
-Vai rápido!
Eu peguei o controle remoto e digitei o canal que Jake me mandou colocar, de início, não entendi o que a repórter falava, deixei o controle cair quando finalmente entendi.
" A advogada de quarenta e dois anos, Marie Simmons, foi dada como desaparecida nesta manhã. Ela foi vista saindo de sua casa para o trabalho á três dias, mas não chegou ao seu destino. Os policiais locais pedem ajuda para informações, aqui está uma foto."
A foto da minha mãe apareceu ao lado da apresentadora. Era, provavelmente, a foto da carteira de trabalho, crachá ou algo assim. Ela estava de terno e não sorria, era a expressão que eu via todos os dias quando morava com ela. Jake me chamava no telefone mas eu estava olhando fixamente para a televisão, estava com as mãos apoiadas no encosto do sofá e respirava alto.
-Nathalie, pelo amor de Deus, me responde!
Jake gritou pelo celular e eu enxuguei as lágrimas com as costas da mão.
-Eu... Eu estou aqui.
Ouvi Jake suspirar.
-Me desculpe, eu achei que deveria te mostrar.
-Não.. Tá certo. Tudo bem eu... Só fui pega de surpresa.
-Eu entendo.
-Como tá a situação por aí? Eu peguei a matéria no final.
Ele soltou o ar pesadamente, foi como se dissesse "Quer mesmo saber?", antes de continuar.
-Minha mãe deu queixa. Ela saiu cedo pra trabalhar e o escritório tentou ligar em casa pra saber o que tinha acontecido, minha mãe foi até lá saber o que estava acontecendo porquê o telefone não parava de tocar. A casa estava completamente vazia e destrancada, foi aí que ela ligou para a polícia, mas eles disseram que ela tinha que estar á setenta e duas horas desaparecida para eles mandarem o alerta. Minha mãe ficou de olho e nada aconteceu, os policiais verificaram tudo e lançaram um alerta. Eles estão de olho desde então.
Eu só notei que segurava a respiração, quando Jake terminou de falar e eu soltei todo o ar que segurava.
-Você pode me buscar no aeroporto?
Eu estava subindo as escadas, quase corria até o meu quarto.
-Você... Está vindo para Nova Iorque?
Ele parecia surpreso.
-Vou pegar o primeiro voo que conseguir. Te ligo quando chegar.
-Me avisa que horas o voo sai daí.
-Pode deixar.
-Você está bem mesmo Nathalie?
Ele parecia muito preocupado.
-Bem eu não estou né. Eu não tinha um relacionamento bom com a minha mãe, mas ela desapareceu e eu me sinto na obrigação de ir até aí. Eu vou ficar bem.
Eu resumi quando percebi que estava falando demais. Jake disse que me pegaria no aeroporto e se despediu. Mandei a mesma mensagem para Carolyn e June.
"Está ocupada? Eu preciso falar com você. URGENTE."
A resposta de Carolyn veio imediatamente.
"O que aconteceu? Eu estou livre, quer que eu passe aí?"
"Vem pra cá, preciso te contar pessoalmente."
"Chego aí em dez minutos."
"Vem rápido."
Eu fazia uma pequena mala com algumas mudas de roupas enquanto respondia ás mensagens. Corri de um lado para o outro do quarto, me certificando que não esqueceria nada. No tempo que Carolyn prometeu estar aqui, ela chegou. Desci correndo e pedi que ela entrasse enquanto recuperava o fôlego.
-Pela sua cara, não é algo muito bom.
Ela disse me cumprimentando com um beijo na bochecha e ajeitando a bolsa no ombro.
-Minha mãe foi dada como desaparecida.
Eu disse sem enrolar, Carolyn abriu a boca e me abraçou forte.
-Nath... Eu... Nem se o que dizer!
-Eu também não, mas vou para Nova Iorque ainda hoje.
Ela olhou para baixo com um semblante triste. Eu sabia o que ela sentia. Acabei de voltar de uma viagem, mal a vi em todos esses dias e iria para longe outra vez?
-Eu preciso avisar June e John antes de ir, e preciso comprar as passagens também. Não quer me fazer companhia?
Eu pergunto com um meio sorriso. Carolyn concorda com a cabeça e espera eu pegar a mala antes de me acompanhar até a garagem.
-Você está com o carro do Jake?
Perguntei quando vi o sedã preto estacionado ao lado do meu mini-cooper. Ela sorriu.
-Ele, tecnicamente, é meu namorado. Então sim, eu estou com o carro dele.
-Tá certo.
Eu disse rindo enquanto destrancava o carro.
-Para onde primeiro?
Carolyn perguntou colocando o cinto.
-June está muito ocupada? Ela não respondeu á minha mensagem.
Eu dei partida no carro.
-Acho que ela tem plantão hoje. Vai primeiro no seu chefe, deixa que eu falo com June.
-Tá. Consegue ver alguma passagem para a América hoje?
Eu perguntei olhando de relance para ela, que mexia no celular.
-Estou trabalhando nisso, a internet está muito lenta.
Ela fez um biquinho enquanto olhava a tela do celular.
-Você é um anjo, sabia?
Ela sorriu.
-Eu sabia, mas vou deixar essa passar.
Nós duas rimos e eu não sabia que isso me fazia falta. Passar um tempo com a minha melhor amiga. Quando fiquei presa no caótico trânsito londrino, liguei para John.
-Oi John. Como vai?
-Nathalie! Quanto tempo! Á que devo a honra da ligação?
-Eu queria saber se você está ocupado, eu... precisava falar com você.
-Eu estou em casa, quer passar aqui?
-Não seria muito incômodo?
-Não! Claro que não! E eu ainda não te agradeci pela exclusiva. Me rendeu três paginas na edição especial.
-Não foi nada. John, eu chego aí em vinte minutos, está bem?
-Vou te esperar.
-Obrigada, até daqui á pouco.
-Até.
Eu encerrei a ligação no momento em que o trânsito começou a fluir. Cheguei na casa de John antes do tempo estimulado e pedi á Carolyn que ficasse no carro, eu não pretendia demorar. Toquei a campainha da casa de John e ouvi o cachorro dele latir. John abriu a porta para mim e me convidou para entrar.
-O que é te traz aqui, Nathalie?
Ele disse quando eu me recusei á sentar.
-Eu só vim avisar que estou indo passar alguns dias em Nova Iorque. Eu não tenho certeza de quanto tempo vou ficar, eu só queria avisar mesmo.
-Nathalie, uma mensagem seria o bastante. Você não precisa vir na minha casa só para me avisar, não que eu não goste das suas visitas, eu só não quero que você se sinta obrigada á vir até aqui.
Eu sorri.
-Eu não me sinto na obrigação de vir aqui.
-Isso era tudo?
Ele perguntou, cruzando as mãos no colo.
-Acho que era, obrigada John.
-Não há de quê, Nathalie.
Eu me despedi de John e de seu lindo labrador amarelo antes de voltar para o carro.
-Consegui um voo á tarde, você ficou com o assento da janela.
Carolyn me estendeu o celular mostrando a compra pela internet.
-Obrigada, Carol.
-Quer almoçar antes de ir? Podemos comer McDonald's ou algo do tipo.
-McDonald's então.
Eu concordei com Nathalie e dirigi até a franquia mais próxima da lanchonete. Em geral, estar com Carolyn me impedia de pensar em todos os problemas que eu tinha. Minha mãe, meu pai, Niall... Tudo isso não passava de um pequeno incômodo no fundo do meu subconsciente. No entanto, o tempo passava rápido demais. Em pouco tempo, eu estava dirigindo até Heathtrow, imprimindo minha passagem em um dos terminais e esperando o voo ser chamado.
-Eu não acredito que você está indo de novo.
Ela murmurou quando nos sentamos.
-Eu volto logo, prometo. Vou passar alguns dias lá, só pra saber o que tá acontecendo. Aí eu volto.
-Eu ainda vou sentir saudades. E você nem me contou como foi a viagem para Brighton.
Ela fez um biquinho e eu a abracei.
-Eu te conto quando voltar. Prometo.
O voo para Nova Iorque foi anunciado. Abracei Carolyn mais uma vez e caminhei até o portão de embarque. Me acomodei na poltrona e tentei dormir. Mas toda vez que eu estava quase entrando no sono profundo, alguma imagem da minha mãe me vinha á mente e eu não conseguia dormir. Isso aconteceu durante as quinze horas de voo. Eu me sentia exausta. O aviso para que os cintos de segurança fossem colocados, piscava incessantemente. Fechei os olhos enquanto o avião pousava. Eu estava me preparando para o que quer que me esperasse em terra firme. Peguei minha pequena mala na esteira e liguei o celular, havia uma mensagem de Jake, dizendo que já estava no aeroporto. Caminhei até o portão de desembarque com a alça da mala nos ombros e não demorei para achar Jake me esperando um pouco á frente. Eu apertei o passo e o abracei forte.
-Me desculpe pela situação. Eu senti sua falta aqui.
Ele murmurou na minha cabeça. Jake pegou minha mala e passou o braço livre pelos meus ombros enquanto caminhávamos até seu carro.
-Eu tinha esquecido o quanto essa cidade podia ser estressante.
Jake me lançou um meio sorriso, tentando amenizar toda aquela situação. Eu sorri e ficamos em silêncio durante um tempo. Eu estava agoniada. Minha mãe foi dada como desaparecida e eu não faço a mínima ideia do que fazer para ajudar.
-Eu sei que você quer perguntar alguma coisa.
Ele murmurou olhando o trânsito.
-O que eu posso fazer pra ajudar?
-Acho que a polícia vai querer seu depoimento, mesmo que você tenha morado em Londres nos últimos três anos.
-Onde eu vou ficar?
-Você pode ficar na antiga casa, eu acho que não tem problema.
Eu suspirei. Voltar pra minha antiga casa, depois de tanto tempo, seria estranho e, ao mesmo tempo... Bom. Eu sentia falta disso tudo.
-Como vai o caso?
Eu perguntei, mudando de assunto. Jake sorriu.
-Ryan está dando um tempo para analisar tudo direitinho, eu estou defendendo um cara que foi assaltado. Você acredita que o assaltante processou meu cliente porque, quando foi fugir, tropeçou na cerca e quebrou a perna?
-Você tá falando sério?
-Seríssimo.
Ele respondeu.
-Como o cara teve a coragem de processar ele? Tipo, ele estava assaltando o seu cliente.
Jake sorriu,
-Então! É um caso complicado porque a cerca do meu cliente estava construída fora do terreno e irregularmente. Mas nada muda o fato de que o cara queria roubar ele!
-Esse mundo está cheio de gente louca.
Eu disse balançando a cabeça negativamente. Jake estacionou na frente da minha casa e eu me lembrei da primeira vez que estive ali.
Flashback on- P.O.V. Autor- 3 anos atrás.
Marie e Nathalie acabaram de desembarcar em Nova Iorque. Mais uma cidade para a lista de Nathalie. Mais um término de relacionamento para Marie. As duas mal se olhavam no banco de trás do táxi. Marie estava tão absorta no celular, verificando a situação de alguns casos e de alguns clientes. E Nathalie observava atentamente toda a paisagem pela janela do carro. Ela estava irritada e maravilhada ao mesmo tempo. Era mais uma cidade, mas era Nova Iorque. Ela sempre assistia aos jogos dos Yankees e estar aqui era como estar num sonho. Marie havia aceitado estar em Nova Iorque porque seu contrato aqui lhe renderia um ano e um salário estável. Seria bom manter Nathalie longe de encrenca por um tempo. Los Angeles fez Marie pensar que não conhecia a filha que tinha. Desde quando Nathalie se envolvia com drogas? Desde quando ela fumava cigarros? Ela talvez, tenha se preocupado muito com a carreira e não reconhecia mais sua própria filha. Nathalie desceu do carro e encarou a pacata rua onde iria morar pelo próximo ano. O taxista pegava as malas enquanto Marie desligava o celular e olhava para a casa. Não tinha nada de especial, era um sobrado de dois andares, três suítes, cozinha americana e sala ampliada. Os quartos já vinham com alguns móveis e a mobília restante foi entregue num caminhão ontem á tarde. Nathalie notou alguns vizinhos enxeridos se aproximando e tratou de colocar os fones de ouvido. Não iria falar com ninguém. Não agora. Nathalie entrou na casa e foi direto para o segundo andar, sua mãe havia falado algo sobre o primeiro quarto á direita. O quarto estava inteiro mobiliado, a cama já estava com o travesseiro e tudo. Ela ouviu uma batida na porta e se demorou um instante para abrir, não seria Marie. Ela nunca teria esse tipo de contato com a filha. Ao abrir a porta, Nathalie se deparou com as duas malas cinzas que usava para trazer a mudança, junto de algumas poucas caixas que continham seus pertences. Roupas, sapatos, algumas fotografias, miniaturas e um número considerável de livros. Enquanto colocava cada coisa em seu devido lugar, Marie conversava animadamente com uma de suas novas vizinhas. Josie Collins era uma escritora. Ela notou a movimentação na casa á venda de sua rua e ficou esperando a nova família se mudar. Tinha um marido, Heath Collins e o único filho, Jake. Jake havia sido obrigado por sua mãe, a conhecer a nova vizinha. O que era um saco para ele. Ficou sorrindo e concordando na meia hora de conversa que observou entre sua mãe e Marie. Nathalie respirou fundo antes de sair de casa pela manhã. Era a décima segunda escola em onze anos desde que seu pai se fora. Enquanto caminhava até a escola, Nathalie repassava em sua cabeça o discurso que tinha praticado nos últimos cinco anos. "Sim, eu sou a aluna nova. Não, não quero entrar no seu grêmio estudantil. Olha, não me leve á mal, é o meu primeiro dia, eu não conheço ninguém." O dia estava indo muito bem, Nathalie repetira o discurso apenas duas vezes para uma líder de torcida insistente. Ela não queria ser legal com Chelsea, mas não podia ser briguenta já no primeiro dia. Sentiu olhares constantes sobre ela, uma aula antes do intervalo, estava começando a ficar irritada.
-Você é a aluna nova, certo?
Um garoto havia a cutucado quando o sinal bateu.
-Sim.
-Jake Collins.
Ele estendeu a mão para cumprimentá-la educadamente e ela apertou sua mão.
-Nathalie.
Ele sorriu e ela voltou a caminhar até seu armário.
-Espera! Você... Hum... Não quer sentar comigo e com os meus amigos? Quero dizer, o pessoal costuma se sentar junto com o clube que faz parte e você não faz parte de nenhum... Faz?
Ele a seguiu pelo corredor e continuou encarando-a até Nathalie responder.
-Eu vou me sentar sozinha. Obrigada.
Ela fechou a porta do armário com força e continuou andando. Jake não desistiu.
-É só sentar na nossa mesa! Você não vai achar nenhuma mesa vazia, eu estou falando sério.
Jake colocou a mão no braço de Nathalie, impedindo-a de continuar andando.
-Você não vai desistir, não é mesmo?
Ela juntou as sobrancelhas. Jake sorriu.
-Não vai ser tão ruim, o timo de futebol costuma ser educado.
Jake apresentou a garota nova para o time da escola, ela ficou vermelha e respondeu baixo todas as perguntas que lhe faziam. Tyler Daniels olhou cuidadosamente a novata á sua frente. Ela era consideravelmente mais baixa que todo o time de futebol, era bonita, com os cabelos escuros e os olhos azuis. Jake não poderia ter escolhido alguém melhor.
-Qual sua próxima aula?
Jake perguntou quando o sinal bateu, indicando o fim do intervalo.
-Inglês. Mas tenho um tempo livre depois dessa aula.
Ela disse olhando o visor do celular, checando a foto que havia tirado dos horários. Jake e Tyler acompanharam a novata até a sala de inglês.
-Você encontra a gente lá no campo? No seu tempo livre?
Tyler perguntou, lançando um sorriso irresistível para a garota.
-Se eu achar o caminho. Tenho que ir, até mais tarde rapazes.
Ela se despediu com um aceno e entrou na sala de aula. Jake e Tyler se entreolharam e sorriram. Foi a novata mais difícil de convencer. Nathalie foi seguindo as instruções do professor de inglês para chegar até o campo onde o time treinava. Ela achou muito estranho o lugar estar completamente vazio e sim, era maluca por estar ali sozinha. Ela caminhou mais um pouco e viu alguém se mexer atrás da arquibancada. Todo o time de futebol a esperava com um trote regular para todos os novatos. Assim que Nathalie pisou atrás da arquibancada, foi atingida por um punhado de várias coisas, água, farinha... Não queria nem descobrir o que mais estava no seu cabelo. Quando terminaram, ela estava furiosa e os garotos riam, mas não era por mal. Era uma tradição do colégio. Eles deram um abraço coletivo na garota que grunhiu em resposta. Jake veio se desculpar.
-Eca.
Ele disse tirando um pouco da meleca do cabelo da garota. Ela afastou sua mão com um tapa.
-Ei, não leve á mal. É só uma brincadeira.
Ele sorriu para ela, mas Nathalie continuou séria.
-Você vai ver a brincadeira, quando eu meter a mão na sua cara.
Ela disse e saiu andando. Por uma semana inteira, Jake, Tyler e todo o time de futebol tiveram que pedir desculpas á garota, que havia colocado pó de mico no uniforme de treinos.
Flashback off- P.O.V. Nathalie Simmos.
-Eu não vou conseguir ficar aqui.
Jake sorriu me encorajando.
-Eu estou num hotel, você pode ficar no meu quarto.
-Obrigada.
Minha voz saiu abafada, quase um sussurro. Jake dirigiu até o hotel, não muito longe dali. Disse que eu poderia dormir se quisesse, ele ficaria acordado analisando o caso por mais algumas horas. Eu estava realmente exausta. Deixei a mala num canto do quarto e desabei na cama depois de me trocar no banheiro. Eu teria um longo dia pela frente.
P.O.V.- Autor
Pela manhã, Jake conseguiu tomar um café com Nathalie antes de sair para uma reunião. Ela havia pesquisado pelo celular quem era o delegado responsável pelo caso da advogada Marie Louisa Simmons. Donald Blake tinha cinquenta e três anos, era delegado no 13º DP e era policial há mais de trinta anos. O caso veio parar em suas mãos quando Josie Collins deu queixa em sua delegacia. Donald havia se interessado logo de cara. Uma advogada famosa não some assim, do nada. Refez a rotina da advogada trezentas vezes e não entendia como ela poderia ter sumido. Faltava alguma coisa. A mulher saía de casa ás sete em ponto, pegava um táxi até o escritório na Wall Street e chegava lá por volta das oito. Tomava um café antes de entrar no prédio e almoçava á uma quadra dali. Voltava pra casa ás dez da noite e repetia a rotina. O delegado foi informado que a advogada tinha uma filha e uma série de ex-namorados, mas apenas um ex-marido. Tanto a filha, quando o ex-marido estavam em Londres e, portanto, o contato com qualquer um dos dois seria um pouco difícil. Donald decidiu então, tornar o caso público. Nathalie tomou um táxi até a quinta avenida onde a delegacia ficava, uma mulher de farda estava com um microfone daqueles de atendentes de telemarketing na recepção.
-Pois não?
Ela perguntou quando notou a garota parada na porta.
-Eu... Vim prestar depoimento no caso da advogada desaparecida.
A recepcionista olhou para a garota por um momento, a polícia não tinha pedido para que civis prestassem depoimento, mas como o caso estava parado, não custava tentar.
-Preciso do seu nome e da sua digital, para os arquivos.
-O nome completo?
-Sim, e preciso da sua identidade.
Nathalie deu a identidade o pressionou o polegar no leitor.
-Você é a filha dela?
A recepcionista pareceu surpresa.
-Eu fiquei sabendo, resolvi tentar ajudar.
-Vem, o delegado Blake vai querer fazer seu depoimento.
Nathalie seguiu a recepcionista até o aquário que era a sala do delegado Donald Blake, ele esfregava as têmporas enquanto mantinha o olhar fixo em alguns papéis em sua mesa.
-Blake, você vai querer falar com ela.
Nathalie pode escutar a recepcionista falar. O delegado levantou os olhos para a garota do outro lado do vidro e, com um sinal de mão, pediu para que ela se aproximasse.
-Você é...?
Ele perguntou quando Nathalie se sentou na cadeira á sua frente
-Nathalie. Nathalie Simmons.
Donald Blake se ajeitou na cadeira.
-Você está a par da situação da sua mãe?
-Eu só fiquei sabendo que ela está desaparecida.
-Isso. Eu vou fazer algumas perguntas, certo?
-Certo.
-Onde você estava nos últimos três dias?
-Em Londres, eu cheguei em Nova Iorque ontem á noite.
-Sua mãe tinha algum inimigo, algum ex-namorado ciumento, alguém que pudesse representar algum perigo pra ela?
Nathalie pensou por alguns minutos.
-Olha, minha mãe teve um monte de ex-namorados, mas eu não acho que eles estejam por trás disso. Eu não conhecia ninguém do trabalho dela e não a vejo há uns três anos.
Donald voltou a estaca zero, achou que, com a filha de Marie aqui, teria alguma pista. Mas a garota parecia saber tanto quanto eles.
-Sua mãe era uma advogada criminal, ela deve ter algum cliente insatisfeito por aí...
-Eu não sei, ela geralmente ganhava as causas. Acho que todos os clientes estão bem satisfeitos.
Donald apoiou a cabeça nas duas mãos.
-Tem alguma coisa faltando, sua mãe tinha uma movimentação bancária normal para um advogado. Sequestradores poderiam ter escolhido qualquer um, porque ela?
-Minha mãe foi sequestrada?
Nathalie sentiu um aperto no peito.
-É uma possibilidade.
Blake folheou alguns papéis. Aquilo não estava certo.
-Vocês estão monitorando a conta dela?
Nathalie perguntou baixo, não queria ficar em silêncio e ter que pensar nas infinitas possibilidades sobre o que teria acontecido com a sua mãe, então tirou qualquer informação sobre filmes, livros e séries policiais que conseguiu.
-Demos uma olhada no extrato bancário, sua mãe tem uma bela quantia guardada.
-Vocês não deveriam... Sei lá, monitorar o cartão de crédito dela, qualquer coisa assim?
-Estamos trabalhando nisso, se sua mãe usar o cartão, nós vamos saber.
No mesmo instante, um estagiário abre a porta de vidro com força, ele acaba de receber a informação.
-Vinte dólares num posto de gasolina, Long Island.
Donald pegou o casaco, a arma e o distintivo. Era a primeira pista em quatro dias.
-O que eu faço?
Nathalie perguntou se levantando.
-Deixe seu telefone com a Kim, eu aviso se tivermos alguma novidade.
Donald disse saindo. Nathalie deixou o telefone com Kim, a recepcionista, e saiu da delegacia com a intenção de ir para o hotel. Mas era um pecado estar em Nova Iorque e ficar trancada num quarto de hotel. Nathalie não havia pego a câmera, não achou que precisaria. Pegou um táxi até o Central Park e tirou algumas fotos com o celular. Sim, ela parecia uma turista. Não, como fotógrafa ela não se orgulhava de estar tirando fotos com a câmera do celular. Mas as fotos estavam ficando legais e ela poderia postá-las no instagram. Ela andou por todo o parque, a quinta avenida, Times Square e tirou uma foto muito bonita da ponte do Brooklyn. Quando voltou ao hotel, a tela do celular mostrava uma mensagem de uma nova mensagem de voz e uma ligação perdida de um número desconhecido. Nathalie não havia tirado o celular do modo silencioso. Decidiu ouvir a mensagem.
"Nathalie, aqui é o delegado Donald Blake. Temos notícias sobre a sua mãe, retorne assim que ouvir o recado." Ela retornou a ligação e teve meia hora de conversa com o delegado. Eles dirigiram até Long Island e pediram as gravações das câmeras, como não tinham um mandado, tiveram que explicar para o dono do posto, toda a situação. Eles analisaram as imagens e os registros do caixa. Marie estava no banco de trás de um Impala '67 preto. Dois caras saíram do carro, um foi abastecer o carro enquanto o outro entrou na loja de conveniência. Eles estavam de jaqueta e calça jeans, não dava para vê-los muito bem na imagem, de modo que não poderiam fazer um retrato falado. O carro seguiu pela Long Island Expressway e eles usaram o cartão num caixa eletrônico no Queens. Sacaram tudo o que o limite máximo permitia e continuaram rodando. O delegado mobilizou a polícia local para ficar de olho no carro. Com essas pistas, estava mais do que claro que Marie Simmons havia sido sequestrada por dinheiro, como ela não tinha família presente para pedir um resgate, eles sacariam todo o dinheiro de sua conta. Donald Blake conhecia muito bem esse tipo de sequestro, e eles tendiam a não terminar bem. Ele passou o resto da tarde traçando o passado econômico de Marie Louisa Simmons. Tinha algo que não batia, a renda dela costumava ser extremamente alta em 2006 e 2007, mas voltou para um padrão normal de um advogado em 2008. Esse dinheiro tinha sumido, não foi investido em imóveis ou em gastos comuns, tinha sumido. Sem mais nem menos.
-Verifiquem contas no exterior para Marie Louisa Simmons.
Ele gritou de sua sala, o estagiário que havia notado a movimentação com o cartão de crédito, ficou encarregado de procurar. Foram precisos algumas ligações e meia hora de pesquisa para constatar que ela tinha uma conta no banco nacional Suíço. Por fax, eles enviaram os registros de Marie Simmons. Pronto, aí estava o dinheiro que havia sumido. Transferido para uma conta no exterior. Blake ligou para algumas delegacias do Queens e mandou um alerta geral para um Impala '67 e, mais especificamente falando, uma mulher de quarenta e dois anos, estatura mediana e caucasiana, chamada Marie Simmons. As delegacias, por sua vez, colocaram um alerta em postos de gasolina e aeroportos. Se Marie saísse na rua, algum policial avisaria o delegado Blake e eles iriam atrás. Era uma questão de tempo. Nathalie sentiu algo que não pôde descrever enquanto falava com o delegado. Era uma mistura de angustia e ansiedade, preocupação e algo desconhecido. Ela foi dormir com essa sensação estranha e acordou do mesmo jeito. Ela e Jake tomaram café juntos e almoçaram na antiga casa de Jake, Josie os convidou para darem uma passadinha lá. Pela janela da sala, Nathalie observava a fachada de sua casa. Então, ouve um estalo em sua cabeça. Era o mesmo sentimento que tivera quando estava em Oakland. Precisava ir até a sua casa, precisava estar ali mais uma vez. Se despediu de Josie com um abraço e disse á Jake que já voltaria. Ela caminhou rápido até sua casa e respirou fundo antes de girar a maçaneta. A porta estava destrancada e a casa estava apagada e assustadoramente silenciosa. Ela caminhou até a cozinha e todos os objetos estavam no mesmo lugar em que ela se lembrava. Tudo estava no exato lugar que ela lembrava. O seu quarto estava um pouco mais empoeirado, mas a caixa de fotos ainda estava lá. Ela se lembrou de algo muito importante. Arrastou a cômoda ao lado da cama para achar uma tábua solta no piso, tirando aquilo estavam alguns de seus tesouros da adolescência. A foto do álbum de casamento da sua mãe, a página rasgada de um livro, uma carta que ela havia escrito ao seu pai, com seis anos de idade e o medalhão de ouro que ganhou dos seus pais quando ela nasceu. Nem se lembrava que aquilo estava ali. Ela juntou tudo aquilo, a caixa de fotos e algumas poucas coisas que havia deixado ali.
-Nath?
Ouviu Jake chamá-la do andar de baixo. Ela já não se sentia mais daquele jeito. Sentia algo próximo a nostalgia.
-Estou descendo!
Ela anunciou, equilibrando suas pequenas coisas nos braços e descendo as escadas.
-O que é tudo isso?
Jake perguntou pegando alguns objetos.
-Eu deixei isso aqui.
Ela respondeu dando de ombros.
-Vamos?
Nathalie estava atravessando a porta enquanto Jake observava a foto um pouco amassada.
-Claro.
Ele respondeu indo até o carro. Nathalie ia explicando o que eram todas aquelas coisas no caminho até o hotel.
-Porque você guardou tudo isso no seu piso?
-Eu sei lá... Queria ter uma capsula do tempo eu acho.
-E porque essas coisas?
-É a única foto que eu tenho dos meus pais, a carta que eu escrevi para Kyle e o medalhão que eu usava quando criança.
-E a página do livro?
Jake perguntou curioso.
-Eu não me lembro. Não sei nem de que livro é.
Ela respondeu analisando a folha. Estava um pouco amarelada e cortada irregularmente. Já era noite quando eles atravessaram a cidade para chegar no hotel. Nathalie e Jake assistiram ao Saturday Night Live e depois adormeceram. Quando Nathalie acordou, era quase a hora do almoço. Jake não estava no quarto e havia um bilhete dizendo que estaria fora o dia todo. Ela decidiu comer alguma coisa numa cafeteria qualquer por ali. Estava terminando o pedaço de bolo quando seu celular tocou.
-Nathalie?
-Pois não?
-Aqui é o Blake.
-Ah sim. Alguma novidade?
-Temos uma nova pista, eu gostaria que você viesse até a delegacia.
-Chego aí em vinte minutos.
Nathalie encerrou a chamada e saiu da cafeteria após deixar uma nota de vinte em cima da mesa. Ela pegou um táxi até a delegacia e chegou antes do horário previsto. Donald Blake parecia preocupado. Um dos policiais de Long Island notou o Impala nas ruas, ele seguiu o veículo por uma estrada de terra que levava á um galpão abandonado. O policial pediu que a central comunicasse o 13º DP em Nova Iorque. Blake sentiu-se no dever em avisar Nathalie antes de ir até Long Island. O policial já estava com uma equipe pronta para a abordagem.
-Temos uma pequena pista de onde sua mãe pode estar. Não é nada concreto, mas achamos o carro.
-Vamos até lá.
Nathalie se levantou rapidamente, não entendia porque ainda estava ali se sabiam onde sua mãe poderia estar.
-Você não pode ir.
O delegado falou, assumindo toda aquela pose protetora.
-Eu vou. Você não vai se livrar de mim.
-Nathalie...
-ELA É MINHA MÃE! EU VOU JUNTO.
Ela aumentou o tom de voz. Não queria perder tempo. Blake concordou com um aceno de cabeça e pediu um colete para a garota. Não seria necessário já que ela ficaria no carro o tempo inteiro.
-Não tire isso em hipótese nenhuma. E fique no carro.
Nathalie concordou com a cabeça e se sentou no banco de trás da viatura. Com exceção do colete á prova de balas, a situação toda era familiar.
Flashback- Um ano antes.
Marie estava se preparando para deitar quando o telefone de sua casa toca. Ela cocou os olhos e amaldiçoou mentalmente a criatura que a interrompia.
-Pois não?
-Marie Simmons?
-Sou eu.
-Meu nome é Dean, eu estou ligando para informar que a sua filha foi detida.
-Detida?
-Ela esta aqui na delegacia. Você pode vir buscá-la?
-Eu... Posso. O que aconteceu?
-Apenas uma confusão senhora. Ela estava brigando na rua, o teste indicou que está sobre o efeito de álcool.
-Eu estou indo aí. Obrigada.
-Não há de quê, senhora.
Marie suspirou e foi se trocar. Desde quando Nathalie bebia? Sabia que a filha tendia a ser briguenta, mas nunca soube de nada sobre bebida. No entanto, Nathalie conheceu o mundo de coisas ilícitas logo quando se mudou para Los Angeles. Aquela noite em particular, haviam lhe oferecido tantas bebidas diferentes que não sabia quantas já tinha tomado. Até aí tudo bem, ela estava alterada mas estava com os supostos amigos. A confusão começou quando ela encontrou na rua, um babaca do colégio. Ele tentara se aproveitar dela e Nathalie revidara com um belo chute no meio das pernas do garoto. Quando se recuperou, ele puxou Nathalie pelo braço, que pôs em prática as três aulas de karatê que havia feito e dobrou o braço dele. Mesmo quando o garoto já estava no chão, Nathalie continuou agredindo-o. Os vizinhos acordaram com o barulho e chamaram a polícia que chegou logo depois. Separaram os dois e chamaram uma ambulância para o garoto que estava com o braço quebrado. Os amigos de Nathalie não estavam mais lá. Deram o fora quando escutaram as sirenes. O garoto foi para o pronto-socorro e Nathalie, para o banco de trás da viatura. Dean Martinez era o policial mais próximo da rua onde o chamado foi feito. Ele olhava para Nathalie pelo retrovisor e não entendia como uma garotinha podia ter quebrado o braço de um menino três vezes maior que ela. Nathalie estava irritada porque estava algemada. E estava irritada com os olhares constantes do policial. Ficou mais irritada ainda quando uma mulher do conselho tutelar veio lhe perguntar se a mãe dela sabia daquilo. Claro que não sabia! A garota estava no meio da rua, bebendo com alguns amigos, num bairro completamente diferente. Marie ficou desapontada por saber que sua filha tinha chegado á isso. Agradeceu ao policial e levou Nathalie para casa. Não conseguiu falar nada. Não sabia o que falar para filha. Nathalie não sabia que sua mãe não sabia o que falar porquê lhe faltava experiência. Sua mãe nunca teve que falar algo parecido e ela nunca tinha vivido isso até hoje. De modo que lhe faltavam palavras naquele momento. Marie não sabia que tudo o que Nathalie queria, eram poucas palavras.
Flashback off- P.O.V. Autor-
O caminho até Long Island foi silencioso, Donald se comunicava com os colegas pelo rádio e repassava o plano em sua cabeça. Eles pediram um helicóptero como reforço e ele já estava á caminho. O galpão já estava parcialmente cercado pelos policiais quando chegaram. O Impala estava estacionado próximo á uma porta de ferro á poucos metros de onde estacionaram.
-Fica no carro.
O delegado repetiu enquanto saía do carro com o megafone em mãos.
-AQUI É A POLICIA. VOCÊS ESTÃO CERCADOS, SAIAM COM AS MÃOS PARA CIMA E LIBEREM A REFÉM.
Nathalie achou aquilo a coisa mais ridícula que já ouvira. Era óbvio que os sequestradores não iam sair. Ela pôde ver alguém encapuzado sair do galpão, mas não conseguiu escutar o diálogo entre o sujeito e a polícia. Ela saiu do carro. O colete era o dobro de seu peso, mas Nathalie resolveu seguir uma das instruções do delegado e ficar com o colete.
-A gente só quer o dinheiro, só isso!
O sujeito encapuzado respondeu. Donald tornou a falar.
-Você não tem como fugir. Isso vai acabar de um jeito ou de outro. Se você liberar a refém e se render, conseguimos uma pena mínima pra você.
Houve mais alguns minutos de argumentação. Outros dois caras surgiram com uma pessoa. Ela estava com um saco na cabeça e com as mãos amarradas atrás das costas.
-Mãe!
Nathalie não conteve o grito e avançou alguns passos antes de o delegado a barrar com o braço.
-Nos deem o dinheiro e a gente libera ela. É só isso.
-Espera. Vamos negociar!
Blake tentou arrancar mais alguns minutos da atenção do sequestrador, para os atiradores, seria mais fácil acertar os três dali de fora. Mas Nathalie o distraíra, e os outros dois entraram com Marie.
-Mãe! Solta ela! Mãe!
Ela forçava seu caminho até o galpão e outros dois policiais tiverem que segurá-la.
-Não tem negociação.
O bandido fechou a porta do galpão e, no mesmo segundo, o galpão explodiu. Blake envolveu Nathalie a fim de protegê-la de qualquer destroço que pudesse atingi-los. A garota chorava e se debatia. Ela não acreditava na cena á sua frente. Ela não podia acreditar no que estava vendo.
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